Um estudo inédito realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) trouxe uma notícia importante para milhões de brasileiros que convivem com doenças reumáticas autoimunes (DRAI): a vacina contra herpes-zóster é segura e eficaz para essa população. A pesquisa, a maior do mundo sobre o tema, acompanhou 1.192 pacientes com nove diagnósticos diferentes, incluindo artrite reumatoide e lúpus, e mostrou que a vacinação não aumenta o risco de agravamento das condições pré-existentes.

De acordo com a professora Eloisa Bonfá, titular de Reumatologia do Departamento de Clínica Médica da FMUSP e responsável pela pesquisa, o estudo avaliou de forma sistemática a segurança e a capacidade da vacina de estimular as defesas do corpo nesses pacientes, que já têm o sistema imunológico fragilizado pelas doenças reumáticas. "Trinta porcento dos nossos pacientes estavam com a doença em atividade, tomaram a vacina e não tiveram piora, mostrando que ela é altamente segura para essa população", afirmou a especialista.

Os números comprovam a segurança do imunizante. A taxa de piora nos pacientes vacinados foi de 14%, valor equivalente aos 15% observados no grupo que recebeu apenas placebo. Além disso, os pacientes relataram menos eventos adversos, como dor no local da aplicação e febre, do que o grupo de controle formado por pessoas saudáveis. Cerca de 90% dos participantes desenvolveram anticorpos adequados após as duas doses da vacina.

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O estudo incluiu principalmente pacientes com artrite reumatoide, que afeta aproximadamente 1% da população adulta, e lúpus, condição um pouco mais rara. Também foram testadas pessoas com esclerodermia, espondilartrite e outras patologias reumáticas. No entanto, os pesquisadores observaram uma resposta imune menor em pacientes que usam medicamentos específicos, como o rituximabe e o micofenolato de mofetila. "Esses não responderam bem, então é preciso fazer uma análise separada, talvez tomar uma dose a mais, fazer algum reforço", explicou Eloisa Bonfá.

A médica destacou que a vacina recombinante já está disponível no mercado e é recomendada para pessoas acima de 50 anos, faixa etária com aumento de risco para a herpes-zóster. "É uma vacina muito boa, porque quando há infecção nos pacientes com doenças reumáticas o custo é muito alto para o sistema de saúde, já que eles precisam ser internados. A vacina evita essa complicação que pode levar até a morte", afirmou.

O artigo com os resultados do estudo está publicado na revista científica The Lancet Rheumatology. A pesquisa ganha ainda mais relevância no contexto brasileiro, onde o Ministério da Saúde decidiu recentemente não incorporar a vacina contra herpes-zóster ao Sistema Único de Saúde (SUS), mantendo-a disponível apenas na rede privada.

O que é herpes-zóster

A herpes-zóster, popularmente conhecida como cobreiro, é uma doença causada pelo vírus Varicela-Zóster (VVZ), o mesmo que causa a catapora. Esse vírus permanece em latência durante toda a vida da pessoa, podendo se reativar na idade adulta ou em quem tem comprometimento imunológico, como os portadores de doenças crônicas.

Os principais sintomas incluem dor intensa, formigamento, ardor, coceira ou sensibilidade exagerada ao toque na região afetada. Podem ocorrer também febre baixa, dor de cabeça, mal-estar e dores nos nervos. Na fase ativa, aparecem manchas vermelhas seguidas de pequenas bolhas agrupadas que rompem, secam e formam crostas em cerca de sete a 10 dias.

O tratamento é feito com antivirais que devem ser iniciados nas primeiras 72 horas após o surgimento das lesões. Entre as complicações mais comuns estão dor crônica que persiste por meses ou anos após a cicatrização, problemas neurológicos, queda na quantidade de plaquetas no sangue, e infecções bacterianas secundárias que podem evoluir para quadros graves como sepse, pneumonia ou meningite.

Para pacientes com doenças reumáticas autoimunes, que já enfrentam desafios diários com sua condição de saúde, a comprovação da segurança da vacina representa um avanço significativo na prevenção de uma doença que poderia trazer complicações sérias ao seu já fragilizado estado imunológico.