A Universidade Estadual Paulista (Unesp) está em pleno processo de reestruturação dos seus cursos de especialização, uma movimentação que ganhou força após mudanças na Comissão de Especialização da Pós-Graduação (CEPG). Esse braço de assessoramento da Câmara Central de Pós-Graduação, agora mais representativo, está na linha de frente de um trabalho que busca conciliar projetos pedagógicos inovadores com as vocações econômicas e tecnológicas dos diversos câmpus espalhados pelo estado de São Paulo.
A iniciativa, capitaneada pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação (ProPG) em parceria com a Coordenadoria de Desenvolvimento Profissional e Práticas Pedagógicas (CDeP3), tem um objetivo claro: alinhar essas formações às demandas atuais do mercado de trabalho e às necessidades de diferentes setores da sociedade. Para além do conteúdo, o trabalho envolve prospectar parceiros, melhorar a apresentação e a divulgação dos cursos e, como destaca a universidade, quebrar eventuais medos e preconceitos dos próprios docentes em relação a esse tipo de formação.
Os cursos de especialização, que fazem parte da pós-graduação lato sensu, são voltados para a educação continuada e o aprimoramento profissional. Com duração mínima de 360 horas, eles estão previstos no Regimento Geral da Pós-Graduação da Unesp. Atualmente, a universidade oferece 30 cursos nos formatos presencial, híbrido e a distância, todos reunidos em uma plataforma online com fichas técnicas e documentos. O financiamento pode ser direto, pelos alunos, ou via parcerias com órgãos públicos e instituições interessadas em formações específicas.
Segundo o professor Rodrigo Fernando Costa Marques, assessor da ProPG e presidente da CEPG, a reestruturação começou a ser planejada e implementada em 2024. Desde então, ele já visitou 11 câmpus para identificar vocações regionais e prospectar novos parceiros. "A velocidade com que as coisas estão acontecendo nas profissões é tão rápida que os projetos político-pedagógicos dos nossos cursos de graduação não conseguem acompanhar. Então a especialização vem também cobrir essas aproximações com o mercado de trabalho", afirma Marques. "O que eu ensino para o que de fato está sendo aplicado tem uma distância e é nessa distância que entra a especialização", completa.
Essa nova abordagem já está gerando frutos concretos. Um exemplo é o curso de "Direitos Humanos e sua Aplicação na Polícia Penal", promovido pelo câmpus de Franca em parceria com a Polícia Penal paulista. Com 380 horas e 18 meses de duração, a formação é totalmente financiada pelo governo estadual e visa capacitar profissionais para a compreensão e aplicação dos direitos humanos no sistema penitenciário. "Às vezes temos uma demanda específica em que podemos propor um curso lato sensu para atender um determinado segmento ou público", exemplifica o docente.
Outra parceria em andamento com o governo estadual, atendendo a uma demanda da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), prevê a formação de gestores em "Gerenciamento de Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental em Bacias Hidrográficas" e "Gestão Pública Municipal", em câmpus diferentes da Unesp.
A pró-reitora de pós-graduação, Maria Valnice Boldrin, ressalta que as pós-graduações lato sensu não competem, mas complementam as formações stricto sensu (mestrado e doutorado), pois atendem a públicos distintos. Da lista atual de 30 cursos, o mais antigo é o de endodontia, em Araçatuba, que está na sua 33ª edição, com 864 horas de aula ao longo de 24 meses. Atualmente, três especializações estão com inscrições abertas: endodontia (Araraquara), implantodontia (São José dos Campos) e tecnologias inteligentes, inovação e sustentabilidade (Sorocaba).
O processo para aprovar uma nova especialização é rigoroso: a proposta precisa ser aprovada pelo departamento e pela congregação da unidade envolvida, além de obter o aceite da CEPG. Do ponto de vista institucional, Rodrigo Costa Marques destaca uma vantagem importante: o recolhimento da Taxa de Contribuição e Desenvolvimento da Universidade (TCDU). Atualmente, 5% da TCDU são destinados à ProPG, ajudando a sustentar financeiramente parcerias e convênios, muitos intermediados pela Fundunesp. "Esse recurso vai ficar obviamente, através das taxas administrativas, nas unidades, mas os docentes podem pegar o recurso de um curso lato sensu e ir para um congresso, mandar o aluno dele para um trabalho de campo relacionado com o curso. É uma forma também de atrair recurso", explica o professor.
A reestruturação em curso na Unesp demonstra um esforço da universidade pública para se manter relevante e ágil, oferecendo formação continuada que dialoga diretamente com as necessidades do mercado e da sociedade, aproveitando a capilaridade de seus câmpus para fortalecer vocações regionais e construir pontes com o setor produtivo e o poder público.

