Há exatamente um ano, o Governo de São Paulo iniciou uma das ações sociais mais relevantes dos últimos tempos: a requalificação da Favela do Moinho, localizada no centro da capital paulista. O projeto, que já alcançou 95% de desocupação, tem possibilitado que centenas de famílias troquem décadas de insegurança e vulnerabilidade por moradias dignas em unidades do CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). As histórias dos antigos moradores, agora reassentados, são marcadas por resiliência e superação.

Ângelo da Silva, de 27 anos, mudou para a Favela do Moinho aos 8 anos de idade com a mãe. Sua infância foi marcada pela precariedade e pelo medo constante de incêndios. "Quando eu era pequeno, passamos por quatro incêndios. Minha mãe perdeu tudo, e a gente chegou a morar embaixo da ponte", relatou. Casado e pai de gêmeos, Ângelo vivia em um barraco de madeira com chão batido, onde enfrentava alagamentos em dias de chuva e a presença de animais peçonhentos. "Tinha escorpião em cima da cama, no sofá e até mesmo no banheiro", disse. Para ele, a nova casa representa um recomeço: "Vai ter mais segurança para meus filhos".

Marcos Daniel Oliveira, de 22 anos, também cresceu na favela e teve sua infância marcada por tragédias. "Eu passei por muitos incêndios. O primeiro foi o do prédio. Minha avó e meu avô perderam tudo e tivemos que morar debaixo da ponte", contou. Casado e pai de uma menina de quase dois anos, o entregador deixou para trás um barraco onde pagava R$ 700 de aluguel por uma unidade do CDHU. "Mudar para cá foi uma mudança de vida. É um local bom, com creche, escola e mercado perto", celebrou.

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Eunice Barbosa dos Santos, de 81 anos, morou na Favela do Moinho por 22 anos. Pouco antes de deixar sua antiga casa, descreveu a expectativa de uma vida nova: "Pensava que, quando eu me mudar, minha vida mudaria completamente. Não vou sentir saudade. O que eu sinto é alegria". Dona Eunice enfrentou inúmeros desafios, como a presença de ratos que comiam sua comida, e perdeu o filho durante o período na comunidade. "Para mim, tudo mudou para melhor, inclusive a educação do meu neto", afirmou.

Fernanda Tatiana Pereira da Silva, de 43 anos, auxiliar de limpeza, morou por cinco anos no Moinho após deixar Jundiaí em busca de emprego na capital. Sua mudança foi marcada por dor e alegria: deixou a favela poucos dias após o falecimento de sua mãe, em dezembro do ano passado. "Consegui meu apartamento com muita oração e luta. Estou contente porque vou sair do aluguel. Minha vida vai melhorar", disse.

Francisco Pereira de Araújo, de 50 anos, controlador de estacionamento, viveu na comunidade por uma década antes de se mudar para um apartamento no Brás. "Fui para o Moinho porque era a opção mais barata", explicou. Seu barraco de dois pavimentos tinha estrutura comprometida e nenhuma abertura para circulação de ar. "A sensação é outra. Vou estar em um lugar mais seguro, não é um barraco na favela que pode pegar fogo", relatou.

Francisca Antônia de Lima, de 41 anos, foi uma das primeiras famílias a serem retiradas da favela no ano passado. Com duas filhas, ela optou por uma moradia definitiva na Cidade Líder, zona leste de São Paulo. Seu novo apartamento tem quatro cômodos e está em um bairro com comércio variado. "Eu gostei muito do bairro. Estou muito satisfeita com a minha escolha", avaliou.

O projeto de requalificação resgatou a dignidade de aproximadamente 850 famílias que, por décadas, viveram expostas a riscos constantes: condições sanitárias precárias, doenças infecciosas, animais peçonhentos e o perigo permanente de incêndios. A comunidade estava confinada entre duas linhas de trem e sob a influência do crime organizado.

Com a desocupação quase completa, o antigo núcleo da Favela do Moinho dará lugar a um parque público linear, com áreas verdes e equipamentos de lazer, além de uma estação ferroviária. A transformação não só oferece um novo começo para as famílias reassentadas, mas também devolve à cidade um espaço de convivência e segurança.