A comunicação pública brasileira vive um momento de expansão histórica. Nesta quarta-feira (11), a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) anunciou os 39 projetos selecionados na chamada pública Seleção TV Brasil, considerada o maior investimento já realizado pelo Estado para produção de conteúdo destinado à televisão pública. O anúncio foi feito na Sala Funarte Sidney Miller, no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, marcando um novo capítulo para o audiovisual nacional.

Serão R$ 110 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), em parceria com o Ministério da Cultura (MinC), a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O valor representa um marco no financiamento de produções para a TV pública, com alcance estimado em mais de 120 milhões de brasileiros através da TV Brasil e das emissoras da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP).

Entre os destaques está a primeira novela da história da TV pública brasileira, além de séries, documentários, produções infantis, conteúdos sobre meio ambiente e quatro obras dedicadas ao futebol feminino, todas dirigidas por mulheres. A novela Vambora, coprodução Brasil-Portugal sobre os desafios da migração entre os dois países, inaugura um formato tradicionalmente associado às emissoras comerciais, agora incorporado à estratégia de comunicação pública.

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A Seleção TV Brasil começou a ser estruturada quase um ano antes da abertura das inscrições, em março de 2025. Ao todo, 1.676 propostas foram enviadas das 27 unidades da federação, sendo que 102 chegaram à etapa final de pitching, realizada entre 26 de janeiro e 6 de fevereiro, até a definição dos 39 vencedores. Na fase inicial, 440 propostas vieram das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; 249 das cotas regionais do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo; e 233 de empresas vocacionadas, sendo 188 delas com maioria societária de pessoas negras.

Mais de 40 profissionais da EBC participaram da habilitação e da avaliação preliminar. A banca multidisciplinar contou também com representantes da RNCP. O processo incluiu oficinas de capacitação, consultas ao setor audiovisual e acompanhamento institucional, demonstrando o caráter estruturante da iniciativa.

Emocionada, a diretora de Conteúdo e Programação da EBC, Antônia Pellegrino, destacou o significado do edital. "Esse edital é mais que uma seleção. É um convite ao diálogo com a TV pública. A TV Brasil não quer ser apenas uma janela de exibição, quer ser parceira do setor", afirmou. "Estamos falando de um investimento de R$ 110 milhões. Esse valor é fruto de uma decisão política, cultural e institucional", disse, enfatizando o fato de que todos os 39 projetos contam com participação de mulheres ou pessoas trans em funções de direção, produção ou roteiro.

O presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), André Basbaum, classificou o edital como um marco para o audiovisual e para a TV pública brasileira. "É um processo poderoso, gigante do ponto de vista da circulação da economia e da participação no PIB. O audiovisual brasileiro já é grande, mas pode ser ainda mais relevante, inclusive na internacionalização dos nossos conteúdos. Estamos num momento dourado do cinema brasileiro", afirmou. Basbaum destacou o papel da diretora Antônia Pellegrino e da equipe da TV Brasil na consolidação do projeto, afirmando que representa a consolidação de três anos de reconstrução institucional na EBC.

O ministro em exercício do MinC, Márcio Tavares, lembrou que o edital integra o Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav). "Comunicação pública e política cultural caminham lado a lado. Esse edital simboliza um projeto estruturante para a cidadania e o desenvolvimento sustentável do Brasil", afirmou.

O presidente da Ancine, Alex Braga, ressaltou a articulação institucional. "Celebramos não só a reconstrução, mas a inovação de políticas públicas. O fortalecimento da TV pública é pilar estratégico do audiovisual brasileiro", disse. A representante da Secom, Samantha Marchiori, reforçou que o investimento consolida a comunicação pública como política de Estado. "Não se trata apenas de volume de recursos, mas de um desenho responsável que garante que o investimento chegue ao público. Comunicação pública é direito da população", ressaltou.

Entre os projetos citados na cerimônia está Gente de Verdade, voltado à temática indígena que, segundo Antônia Pellegrino, "arrasou os corações" da comissão avaliadora. A diretora Ana Rieper, contemplada com a série documental Aos Quinze, definiu o momento como histórico. "É um edital gigante da nossa TV pública. Representa a política pública que a gente acredita", afirmou.

Da Bahia, o produtor Ducca Rios, selecionado na linha infantil com o projeto Ory, afirmou após o anúncio transmitido pelo YouTube que foi muito importante conquistar o edital da TV Brasil. "Esperávamos por esse momento há muito tempo. A TV Brasil é fundamental para a diversidade da produção brasileira, sobretudo na animação, uma linguagem que ainda precisa de mais atenção e que sempre encontrou espaço no canal", comemorou o produtor.

Os projetos selecionados abrangem diversas linhas temáticas: infantil, infantojuvenil, natureza e meio ambiente, futebol feminino, sociedade e cultura, produção e finalização de longas-metragens, e produção de novela. Entre as obras estão produções como O Tubarão Martelo (MG), Ginga (MG), Memorial de Francisco (MG), Toda Menina Futebol Clube (BA), Beth Carvalho – Guardiã do Samba (RJ), Angústia – Adaptação cinematográfica de Graciliano Ramos (SP) e Marcélia (CE).

Com exibição prevista na TV Brasil e nas emissoras da Rede Nacional de Comunicação Pública, os conteúdos representam um salto qualitativo e quantitativo na programação da televisão pública brasileira, reforçando seu papel como instrumento de diversidade cultural, inclusão social e fortalecimento da identidade nacional.