Em um discurso carregado de tom beligerante, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou Cuba na mira de sua política externa durante um fórum de investimentos em Miami nesta sexta-feira (28). Ao elogiar as ações militares de seu governo na Venezuela e no Irã, Trump fez uma declaração que ecoou como um alerta: "Cuba é a próxima". A frase, proferida sem maiores detalhes sobre planos concretos, reacendeu temores de uma escalada de tensões com a nação insular, que já enfrenta uma grave crise econômica e energética.

"Eu construí esse grande exército. Eu disse 'Você nunca terá que usá-lo.' Mas, às vezes, é preciso usá-lo. E, a propósito, Cuba é a próxima", afirmou Trump na conferência, deixando em aberto se a referência era a uma ação militar direta, a novas sanções econômicas ou a outras medidas de pressão. O presidente tem repetido em ocasiões anteriores sua crença de que o governo de Havana, liderado por Miguel Díaz-Canel, está à beira do colapso, aproveitando-se das dificuldades internas do país.

A declaração ocorre em um momento delicado para Cuba. A ilha sofre há décadas um forte embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, mas a situação se agravou sob a administração Trump, que intensificou as restrições. Uma das medidas mais impactantes foi a pressão para impedir que a Venezuela, aliada histórica de Cuba, continue fornecendo petróleo subsidiado à ilha. Isso desencadeou uma crise energética severa, com apagões frequentes que afetam milhões de pessoas.

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Nos últimos meses, Cuba tem enfrentado uma série de interrupções no fornecimento de energia elétrica, deixando mais de 10 milhões de habitantes sem luz em diversos momentos. Hospitais, escolas e serviços essenciais têm sido prejudicados, agravando ainda mais as condições de vida em um país que já lida com escassez de alimentos e medicamentos. A situação levou a protestos pontuais e a um aumento da insatisfação popular, o que pode estar alimentando a avaliação de Trump sobre uma possível fragilidade do regime.

Paradoxalmente, enquanto o presidente americano faz ameaças veladas, seu governo tem mantido canais de comunicação abertos com Cuba. Nas últimas semanas, iniciaram-se negociações com lideranças cubanas, embora os detalhes desses diálogos não tenham sido divulgados. Especialistas em relações internacionais veem nisso uma estratégia de "pau e cenoura", combinando pressão pública com conversas em bastidores para tentar extrair concessões.

O contexto regional também influencia a postura de Trump. Após ações como o ataque que eliminou o general iraniano Qassem Soleimani e o apoio a tentativas de derrubar o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, o presidente parece querer projetar uma imagem de força resoluta contra governos considerados adversários. Cuba, com sua longa história de confronto com os Estados Unidos desde a Revolução de 1959, se encaixa nesse perfil.

No Brasil, a posição do governo Jair Bolsonaro tem sido de alinhamento com as políticas americanas, inclusive na condenação ao regime cubano. Recentemente, o Itamaraty voltou a criticar o embargo econômico contra a ilha, mas sem romper com a linha geral de apoio às iniciativas de Washington na região. A declaração de Trump deve reacender debates sobre a soberania nacional e os impactos de uma eventual intervenção em um país tão próximo geograficamente e culturalmente.

Enquanto isso, a sociedade civil internacional tem se mobilizado para tentar aliviar o sofrimento do povo cubano. Um comboio humanitário conseguiu entregar toneladas de ajuda à ilha recentemente, mostrando que, apesar das tensões políticas, há esforços para mitigar a crise humanitária. No Irã, Trump anunciou uma suspensão temporária de ataques a usinas de energia até 6 de abril, em um gesto que pode indicar uma pausa tática, mas não uma mudança de rumo.

O que significa exatamente "Cuba é a próxima" ainda é uma incógnita. Analistas alertam que pode ser apenas uma bravata retórica para agradar a base eleitoral conservadora de Trump em um ano eleitoral, ou um sinal de que medidas mais duras estão sendo planejadas. De qualquer forma, a declaração joga mais lenha na fogueira das relações já conturbadas entre Washington e Havana, deixando o Caribe em alerta e o mundo atento aos próximos capítulos dessa história.