Encontrar uma árvore coberta por lagartas pode parecer apenas uma cena incomum na natureza, mas representa um risco real à saúde pública no Brasil. As espécies do gênero Lonomia, popularmente conhecidas como taturanas, são capazes de inocular veneno ao entrarem em contato com a pele humana — e, em casos graves, o acidente pode levar à morte.
Segundo o Instituto Butantan, referência nacional no assunto, os sintomas do contato com as lonomias começam com dor intensa com sensação de queimadura e vermelhidão no local, às vezes acompanhados de leve inchaço e, mais raramente, bolhas. Horas após o contato, o envenenamento pode evoluir para dor de cabeça, náuseas e mal-estar geral, que antecedem a alteração na coagulação sanguínea e hemorragias pelo corpo, como nas gengivas e na urina.
O único tratamento específico disponível é o soro antilonômico, desenvolvido e produzido exclusivamente pelo Instituto Butantan a partir do veneno extraído das próprias lagartas. O Brasil é um dos dois únicos países produtores deste soro no mundo, junto com a Colômbia.
"A população tem um papel crucial na identificação das lonomias que, dependendo da região, podem ser encontradas em diferentes épocas do ano. Em muitos casos, moradores de áreas de mata nativa, habitat natural desses insetos, monitoram o surgimento das lagartas e avisam o serviço de saúde para retirada do local e envio para o Butantan", explica a diretora técnica de produção de soros hiperimunes do Instituto, Fan Hui Wen.
As lonomias geralmente possuem características como cores castanhas, brancas, pretas ou rosadas, com espinhos verdes ou escuros, e são encontradas principalmente em áreas de mata nativa, jardins, pomares e zonas rurais. Seu ciclo de vida completo inclui quatro fases: ovo, larva (lagarta), casulo ou pupa e adulto (mariposa).
"Assim, a criação em cativeiro torna-se muito mais complexa, não se mostrando até o momento exequível. Desta forma, contamos com a parceria de prefeituras e estados, nos quais Centros de Controle de Zoonoses e Vigilância Sanitária fazem a coleta nos locais onde as lonomias são encontradas pela população e nos enviam os exemplares necessários para a produção", complementa Fan Hui Wen.
O processo de produção do soro é complexo e segue metodologia similar à dos outros antivenenos produzidos pelo Butantan. O veneno da lonomia, matéria-prima básica do soro, é obtido por meio de um "extrato" de cerdas da lagarta, que precisam ser cortadas, maceradas e, depois, separadas para obtenção da substância na forma líquida.
"Precisávamos do veneno da lagarta para produzir um antígeno para imunizar cavalos, para que estes produzissem anticorpos específicos no plasma. Após o plasma ser processado na fábrica de soros, chegamos ao produto capaz de neutralizar o envenenamento sistêmico causado pela lonomia. Este foi o grande desafio na produção", detalha a diretora técnica.
Com desenvolvimento e produção iniciados pelo Butantan na década de 1990, o Instituto fabrica cerca de 5 mil doses anuais — número que já chegou a 17 mil em períodos de maior demanda. As doses produzidas são enviadas ao Ministério da Saúde, que distribui o medicamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
O soro brasileiro já cruzou fronteiras, salvando vidas em diversos países da América do Sul, como Peru, Argentina, Uruguai, Guiana Francesa e Guiana. Em 2023, o Instituto recebeu uma carta de agradecimento do Parlamento Britânico por ter salvado a vida de um inglês de 29 anos que pisou em uma taturana durante viagem pela Guiana.
Diante da dificuldade dos médicos locais em identificar a causa dos sintomas, amigos do jovem — incluindo uma brasileira — procuraram o Hospital Vital Brazil, unidade especializada do Butantan no atendimento de acidentes por animais peçonhentos. Iniciou-se então uma força-tarefa para enviar o soro antilonômico ao paciente, que recebeu alta duas semanas após o tratamento.
O Instituto Butantan reforça que o soro não é comercializado diretamente para pessoas físicas ou empresas. A aplicação deve ser feita exclusivamente em ambiente hospitalar, sob supervisão de profissionais de saúde qualificados.
Para quem encontrar lonomias, a recomendação é nunca tentar coletar o animal sem a supervisão de profissionais especializados. A orientação é acionar imediatamente o Centro de Zoonoses do município. Se não for possível aguardar apoio profissional, é imprescindível o uso de luvas de borracha e de uma pinça longa para manipulação segura.
As lonomias coletadas podem ser entregues no setor de Recepção de Animais do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, na Avenida Vital Brasil, 1.500, no bairro Butantã, em São Paulo, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h (exceto feriados). Para esclarecimento de dúvidas sobre acidentes, o Hospital Vital Brazil funciona 24 horas por dia no mesmo endereço.

