O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início, nesta quarta-feira (25), a um dos julgamentos mais aguardados do ano no âmbito da administração pública. Os ministros começaram a analisar as decisões monocráticas que suspenderam o pagamento dos chamados "penduricalhos" – benefícios concedidos a servidores públicos que, somados ao salário, ultrapassam o teto remuneratório constitucional de R$ 46,3 mil. O valor é equivalente ao subsídio de um ministro da Corte.

Na sessão desta quarta, os ministros ouviram as sustentações orais de diversas associações que representam juízes, promotores e outras carreiras de Estado. Essas entidades defendem a manutenção dos pagamentos, argumentando principalmente questões de autonomia funcional e financeira. Após as manifestações, o julgamento foi suspenso e será retomado nesta quinta-feira (26), quando se espera o início da votação dos próprios ministros do STF.

O plenário terá de decidir se mantém ou não as decisões dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes, que, em fevereiro, determinaram a suspensão dessas verbas indenizatórias. No dia 5 de fevereiro, o ministro Flávio Dino determinou a suspensão de todos os penduricalhos que não estão previstos em lei. A decisão, de caráter geral, deve ser aplicada pelos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, nas esferas federal, estadual e municipal. Os órgãos terão prazo de 60 dias, a partir da confirmação da decisão, para revisar e suspender o pagamento dessas vantagens que violam o teto.

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Na terça-feira (24), um dia antes do início do julgamento no plenário, o ministro Gilmar Mendes também suspendeu, em decisão monocrática, os pagamentos de penduricalhos a juízes e membros do Ministério Público. A medida reforçou o entendimento de que a prática precisa ser contida.

Durante a sessão de hoje, o ministro Flávio Dino fez uma crítica contundente à forma como o teto tem sido aplicado no país. "Qual o teto que vigora hoje no Brasil? Quem souber responder essa pergunta ganha um prêmio. Ninguém sabe. Hoje, nós devemos ter 2 mil, 3 mil tetos vigentes no Brasil. Esse é o fato", afirmou. A declaração evidencia a falta de uniformidade e os inúmeros subterfúgios utilizados para burlar o limite constitucional.

Já o ministro Gilmar Mendes, em sua fala, reconheceu que a Constituição concedeu autonomia administrativa e financeira ao Judiciário e ao Ministério Público justamente para evitar a dependência burocrática do Poder Executivo. Contudo, ele foi enfático ao afirmar que essa autonomia não pode se transformar em "balbúrdia". "O texto constitucional estabelece regras, inclusive a norma mais programática que se tem, que é o teto de ministros do STF. De teto, pelo que estou vendo pelos números, se tornou piso, e um piso muito ordinário. Ficou uma situação complexa que vai exigir muita criatividade para superar", completou.

O julgamento ocorre em um momento de movimentação paralela para tentar encontrar uma solução para o impasse. Na última terça-feira (24), um dia antes da sessão no plenário, o Supremo e a cúpula do Congresso Nacional deram o primeiro passo para regulamentar o pagamento dos penduricalhos. Eles decidiram fechar um acordo para a criação de regras de transição para as verbas extrateto. A busca por uma regulamentação foi uma das determinações presentes na decisão original do ministro Flávio Dino, indicando que o Corte está ciente da necessidade de um período de adaptação.

A expectativa é que o julgamento no plenário do STF traga uma definição clara sobre a legalidade dos penduricalhos e estabeleça um marco para a correção de distorções salariais no serviço público brasileiro, um tema sensível que envolve orçamento, isonomia e o princípio constitucional do teto remuneratório.