A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início, nesta terça-feira (24), ao aguardado julgamento dos cinco acusados de participação no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, crime que chocou o país em março de 2018, no Rio de Janeiro. A sessão inaugural foi dedicada à leitura da acusação, apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), e às sustentações orais dos advogados de defesa dos réus, que estão presos preventivamente.

O julgamento será retomado nesta quarta-feira (25), a partir das 9h, com a fase decisiva: os votos dos ministros do STF pela condenação ou absolvição dos acusados. No banco dos réus estão figuras de destaque no cenário político e policial fluminense: o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão; seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão; o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa; o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula; e o ex-policial militar Robson Calixto, que atuava como assessor de Domingos Brazão.

A acusação formal envolve os crimes de organização criminosa, duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio contra Fernanda Chaves, assessora parlamentar que estava no carro com Marielle Franco e sobreviveu ao ataque. Conforme a delação premiada do ex-policial militar Ronnie Lessa – réu confesso de ter efetuado os disparos contra a vereadora –, os irmãos Brazão e Rivaldo Barbosa atuaram como mandantes do crime. A investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) aponta que o assassinato estaria ligado ao posicionamento contrário de Marielle Franco aos interesses do grupo político liderado pelos Brazões, com envolvimento em questões fundiárias em áreas controladas por milícias na capital fluminense.

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As linhas de acusação e defesa

Pela manhã, a Procuradoria-Geral da República sustentou que há provas robustas da participação dos cinco réus no crime, defendendo a condenação de todos. A acusação detalhou que Rivaldo Barbosa teria participado dos preparativos da execução; Ronald Alves de Paula é acusado de monitorar a rotina da vereadora; e Robson Calixto teria entregue a arma utilizada no crime a Ronnie Lessa.

Na sequência, os advogados de defesa apresentaram suas sustentações, negando veementemente a participação de seus clientes. Felipe Dalleprane, defensor de Rivaldo Barbosa, afirmou que não há comprovação de corrupção ou ingerência política na indicação de seu cliente para a chefia da Polícia Civil. Cleber Lopes, advogado de Chiquinho Brazão, classificou a delação de Ronnie Lessa como uma "criação mental" e disse que a PGR não conseguiu corroborar as declarações do ex-policial.

Igor de Carvalho, defensor do major Ronald Alves, negou que seu cliente tenha realizado o monitoramento de Marielle Franco, destacando a suposta inimizade entre Ronald e Ronnie Lessa. Roberto Brzezinski, advogado de Domingos Brazão, chamou a acusação de "tenebrosa" e questionou a motivação econômica do crime, argumentando que não foi demonstrado prejuízo fundiário causado pelos Brazões. Por fim, Gabriel Habib, defensor de Robson Calixto, afirmou que ser assessor de Domingos Brazão é um fato lícito que não comprova participação em organização criminosa.

Contexto e expectativas

O caso Marielle Franco transcendeu as fronteiras do Rio de Janeiro, ganhando repercussão internacional e simbolizando a luta contra a violência política e a impunidade. Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) já se manifestaram pedindo "justiça plena" para Marielle e Anderson. Familiares das vítimas acompanharam o primeiro dia de julgamento no STF, reforçando publicamente o pedido por justiça.

O desfecho deste julgamento é aguardado com grande expectativa pela sociedade brasileira, pois representa um teste crucial para o sistema de justiça em um caso de alta complexidade, com ramificações políticas e investigativas profundas. A decisão dos ministros da Primeira Turma do STF poderá estabelecer um marco na apuração de crimes contra defensores de direitos humanos e no combate a estruturas criminosas com influência no Estado.