O Supremo Tribunal Federal (STF) dá início, nesta terça-feira (8), a um dos julgamentos mais aguardados no âmbito das investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A Primeira Turma da Corte, composta pelos ministros Alexandre de Moraes (relator), Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, se reúne a partir das 9h, de forma presencial, para analisar a ação penal que envolve seis réus do chamado núcleo 2 da trama.

No banco dos réus estão nomes que ocuparam cargos de confiança no governo anterior e nas forças de segurança. São eles: Filipe Martins, ex-assessor de Assuntos Internacionais do ex-presidente Jair Bolsonaro; Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro; Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF); Mário Fernandes, general da reserva do Exército; Marília de Alencar, ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça; e Fernando de Sousa Oliveira, ex-diretor de Operações do Ministério da Justiça.

As acusações, formuladas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), são graves e incluem os crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça, e deterioração de patrimônio tombado. A denúncia descreve um plano minucioso para desestabilizar a democracia brasileira.

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De acordo com a PGR, Filipe Martins atuou como um dos articuladores para a elaboração da minuta do golpe, um documento que serviria para justificar a decretação de um estado de sítio na região do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou uma operação de Garantia da Lei e de Ordem (GLO) pelas Forças Armadas. Já o general Mário Fernandes é apontado como o responsável pela elaboração do plano "Punhal Verde Amarelo", que teria como objetivo a morte do ministro Alexandre de Moraes, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin.

A acusação também detalha o papel dos outros réus. O coronel Marcelo Câmara teria sido responsável pelo monitoramento ilegal da rotina do ministro Alexandre de Moraes. Silvinei Vasques, então à frente da PRF, é acusado de ter orquestrado ações para dificultar a circulação de eleitores do Nordeste durante o segundo turno das eleições de 2022, uma tentativa clara de interferir no processo democrático. Os dados que basearam essas operações, segundo a denúncia, foram produzidos a mando de Marília de Alencar e Fernando de Sousa Oliveira, que atuavam dentro do próprio Ministério da Justiça.

Durante toda a tramitação da ação penal, todos os acusados negaram qualquer envolvimento com a trama golpista. A defesa de cada um deles terá a oportunidade de se manifestar durante o julgamento, que promete ser longo e detalhado, dada a complexidade dos fatos e a quantidade de provas apresentadas.

Este julgamento é mais um capítulo na série de processos que o STF conduz sobre os eventos de 8 de janeiro. Até o momento, a Corte já condenou 24 réus pela trama golpista, integrantes dos núcleos 1 (liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro), 3 e 4. O núcleo 5, formado pelo réu Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente da ditadura João Figueiredo, ainda aguarda julgamento, sem data definida, especialmente porque Figueiredo reside nos Estados Unidos.

A sessão desta terça-feira ocorre em um contexto de outros julgamentos importantes no STF. Recentemente, a Corte condenou, por unanimidade, cinco policiais militares do Distrito Federal a 16 anos de prisão pelos atos de 8 de janeiro. Além disso, o tribunal retomou o julgamento sobre benefícios a vítimas de violência doméstica e voltará a analisar, na próxima quarta-feira, o polêmico marco temporal para demarcação de terras indígenas.

O desfecho do julgamento do núcleo 2 é aguardado com expectativa por juristas, políticos e pela sociedade brasileira, pois deve reforçar o entendimento do STF sobre a gravidade dos ataques às instituições democráticas e estabelecer parâmetros importantes para a responsabilização de agentes públicos envolvidos em tentativas de golpe. A decisão da Primeira Turma será um novo passo na longa caminhada do Brasil para apurar e punir todos os responsáveis pela violência que marcou o início de 2023.