A tragédia do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que em 2013 resultou na morte de mais de 200 pessoas, deixou uma lição dolorosa para todo o Brasil: a segurança em estabelecimentos com grande concentração de público não pode ser negligenciada. Situações de incêndio ou pânico nesses ambientes – como casas noturnas, cinemas e teatros – podem evoluir com rapidez assustadora, dificultando a evacuação e colocando vidas em risco. Esse evento catastrófico evidenciou, de forma trágica, a importância crucial de estruturas adequadas e de atitudes seguras em situações de emergência.

No Paraná, a preocupação com esse tema já era uma realidade antes mesmo da ocorrência gaúcha. O estado adota regras rigorosas por meio do Código de Segurança Contra Incêndio e Pânico (CSCIP), elaborado e fiscalizado pelo Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR). O código estabelece normas técnicas detalhadas para garantir a evacuação segura e a proteção das pessoas, abrangendo desde o dimensionamento correto das saídas de emergência até a instalação de sistemas de prevenção e combate a incêndio. Após o incêndio na Boate Kiss, muitos outros estados brasileiros também passaram a endurecer suas exigências, reforçando a importância nacional desse tipo de regulamentação.

A responsabilidade primária cabe aos proprietários e gestores dos estabelecimentos. Eles devem garantir que as edificações estejam adequadas às exigências legais em todas as fases, do projeto ao funcionamento. Isso inclui executar as medidas de segurança previstas, respeitar a capacidade máxima de público autorizada e manter o imóvel em conformidade com o uso para o qual foi projetado, evitando alterações que possam comprometer a segurança estrutural ou a fluidez das rotas de fuga.

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Além da adequação inicial, é dever dos responsáveis assegurar a manutenção contínua de todos os sistemas de segurança. Extintores, hidrantes, sinalização de emergência e iluminação de backup precisam estar sempre desobstruídos, acessíveis e em pleno funcionamento. A porta-voz do CBMPR, capitã Luisiana Guimarães Cavalca, reforça que o cumprimento dessas exigências é fundamental. “As medidas de segurança contra incêndio são projetadas para permitir uma evacuação rápida e segura, além de possibilitar o controle do fogo ainda no início. Quando essas exigências não são cumpridas ou não recebem manutenção adequada, o risco para quem está no local aumenta significativamente”, explica.

Entre as irregularidades mais comuns encontradas pelos bombeiros durante as vistorias estão saídas de emergência obstruídas por móveis ou até mesmo trancadas, e equipamentos como extintores e hidrantes bloqueados por objetos. Situações como essas comprometem diretamente a evacuação e o combate inicial ao fogo, podendo transformar um pequeno incidente em uma grande tragédia. A capitã Luisiana destaca que investir em segurança não é um custo, mas uma prioridade. “Há pessoas que dizem que as estruturas contra incêndio e pânico são muito caras ou difíceis de serem implementadas, mas elas salvam vidas e isso não tem preço”, afirma.

Mas a segurança não é uma responsabilidade exclusiva dos donos de estabelecimentos. Cada pessoa que frequenta esses locais pode – e deve – ser um agente ativo de sua própria proteção, seguindo orientações básicas dos bombeiros. A primeira dica é observar a capacidade máxima indicada para o local e evitar permanecer em ambientes claramente superlotados. Ao entrar em um cinema, teatro ou casa noturna, é crucial identificar visualmente a saída de emergência mais próxima, verificar se ela está desobstruída e destrancada, e localizar extintores e hidrantes, observando se estão acessíveis.

Em caso de emergência, a calma e a informação fazem a diferença. Não se deve voltar para buscar objetos pessoais. É preciso procurar a saída mais próxima, mesmo que não seja por onde se entrou. A capitã Luisiana explica que, em locais com grande concentração de público, é comum o pânico durante uma evacuação rápida. “A quantidade de pessoas pode dificultar a locomoção até a saída de emergência, com risco de pessoas serem pisadas ou até apresentarem dificuldade respiratória durante esse deslocamento”, alerta. Por isso, conhecer rotas alternativas previamente é vital.

Ela destaca ainda um comportamento comum e perigoso: a tendência de tentar sair sempre pelo mesmo local de entrada. “Dependendo da sua localização dentro do estabelecimento, pode haver saídas de emergência mais próximas e acessíveis”, diz. Por fim, ao perceber qualquer situação de risco, o cidadão deve acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.

O CBMPR realiza frequentemente trabalhos de orientação para moradores de edifícios, mas no caso de estabelecimentos de uso coletivo, ainda se faz necessária a construção de uma cultura de segurança específica para esses ambientes. Se em prédios residenciais há maior familiaridade com o espaço e as rotas de fuga, em locais públicos o cenário é diferente: o público não está habituado com a edificação. Por isso, transformar a simples observação do ambiente em um hábito automático ao adentrar um local com grande aglomeração pode ser a chave para uma reação mais segura e eficaz diante do perigo. A lição da Boate Kiss e o trabalho preventivo dos bombeiros no Paraná mostram que, quando se trata de salvar vidas, a prevenção e a atenção coletiva são investimentos que valem cada esforço.