O governo do estado de São Paulo está investindo em uma forma de turismo que vai além da fé: o turismo religioso. Entre os 45 guias turísticos oficiais do estado, sete são dedicados exclusivamente a roteiros que passam por santuários católicos, espaços evangélicos, museus judaicos, templos budistas, mesquitas e terreiros ligados às religiões de matriz africana. O mais recente lançamento é o guia de religiões orientais, publicado em 19 de março, que completa um conjunto de publicações que busca valorizar a diversidade religiosa paulista.

Os números impressionam: o guia católico reúne mais de 300 locais entre igrejas, santuários, museus, festas e capelas; o evangélico traz 43 atrativos em 17 cidades; o judaico destaca mais de 50 atrativos; o de religiões orientais apresenta 32 templos, centros e comunidades; e o de matrizes africanas e indígenas reúne 17 destinos paulistas. O que chama atenção é que esses passeios servem mesmo para aqueles que não têm vínculos com algumas das religiões, funcionando como experiências culturais e históricas.

Catolicismo: Aparecida e o Vale da Fé

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No turismo católico, o grande destaque é Aparecida. A cidade recebe cerca de 12 milhões de devotos por ano e abriga o Santuário Nacional, o maior templo mariano do mundo, com capacidade para 75 mil visitantes. Esse é o roteiro mais conhecido do turismo religioso em São Paulo. Ele costuma atrair visitantes que viajam por devoção, promessas, agradecimento ou tradição familiar. Além de Aparecida, o guia também chama atenção para outros pontos do Vale do Paraíba, como Guaratinguetá, ligada à devoção a Frei Galvão, e Cachoeira Paulista, sede da Canção Nova.

Para quem quer transformar a viagem em uma experiência mais longa, o Guia Turístico Católico de São Paulo também cita duas rotas peregrinas: o Caminho da Fé e a Rota da Luz. Elas ampliam o percurso e conectam espiritualidade, caminhada e passagem por cidades do interior.

Turismo evangélico: Templo de Salomão tem visita guiada

No roteiro evangélico, um dos pontos mais estruturados para visitação é o Templo de Salomão, na capital. O local se destaca porque a visita não se resume ao templo em si. O passeio inclui quatro espaços temáticos: Espaço Egípcio, réplica do Tabernáculo, Memorial de Jerusalém e Jardim das Oliveiras. O percurso é guiado, dura cerca de 1h20 e pode ser feito em português, inglês, espanhol e Libras, com agendamento prévio nesta última opção. Isso torna o local um exemplo de espaço religioso que também funciona como atração organizada para turistas.

Judaísmo: museu e memorial celebram a presença judaica em São Paulo

No turismo judaico, dois espaços se destacam na capital paulista. O primeiro é o Museu Judaico de São Paulo, na Bela Vista, o maior museu judaico da América Latina. O local reúne exposições sobre rituais, tradições e os 500 anos da presença judaica no Brasil, além de atividades educativas e acervo para pesquisa. O segundo é o Memorial do Holocausto e da Imigração Judaica, instalado na primeira sinagoga do estado, no bairro do Bom Retiro. O espaço oferece entrada gratuita e propõe uma visita voltada à memória do Holocausto, da imigração judaica e da formação da comunidade em São Paulo. O roteiro combina religião, cultura e história em uma mesma experiência.

Budismo: Templo Zu Lai é opção para contemplação e arquitetura

Entre os atrativos ligados às religiões orientais, o Templo Zu Lai, em Cotia, é um dos mais conhecidos. Esse é o maior templo budista da América do Sul, onde se desenvolvem atividades culturais, educacionais, sociais e religiosas, além de difundir o budismo em português. Para quem procura um passeio mais silencioso, contemplativo e ligado à arquitetura, esse é um dos roteiros mais acessíveis.

Hare Krishna: espaço mistura espiritualidade, retiro e natureza

Outro destaque entre as religiões de origem oriental é a Fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba, ligada à tradição Hare Krishna. O espaço é um santuário natural com área de preservação ambiental, retiro espiritual em clima monástico, aulas de yoga, culinária vegetariana e vegana, hospedagem, cursos, terapias ayurvédicas (um sistema de medicina indiano) e massagens.

Islamismo: mesquita em Embu das Artes une espiritualidade e ação social

No roteiro islâmico do guia Halal, a Mesquita Sumayyah Bint Khayyat, em Embu das Artes, vai além da função religiosa. O guia a apresenta como um polo de transformação social, cultural e espiritual. Entre as atividades citadas estão distribuição de cestas básicas, café da manhã e marmitas, suporte jurídico, cursos de idiomas, oficinas e diálogo inter-religioso.

Umbanda, Candomblé e tradições indígenas: roteiro valoriza ancestralidade e combate à intolerância

No caso das matrizes africanas e indígenas, o guia turístico dá visibilidade a espaços historicamente menos reconhecidos pelo turismo tradicional. No roteiro, há terreiros, templos e comunidades como lugares de fé, cultura, saberes tradicionais e resistência. Entre os destaques, estão o Templo do Caboclo Guaracy, em Jacareí, a Reserva Indígena Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos, e a Escola Curimba Tambores de Ogum, na capital. Outro destaque é o Terreiro de Umbanda Encruza, em Caçapava, descrito como espaço de resistência, preservação da cultura negra e troca de saberes por meio da culinária, da música, da dança e de outras expressões artísticas.

Impacto econômico e cultural

De acordo com o Ministério do Turismo, o segmento turístico religioso movimenta R$ 15 bilhões por ano e 17,7 milhões de viajantes. Em Aparecida, por exemplo, mais de 10 milhões de pessoas visitaram o Santuário Nacional de Aparecida, segundo o próprio Santuário, em 2025. Os guias do governo de São Paulo mostram que o estado está atento a esse potencial, mas também à importância de promover o respeito e a valorização da diversidade religiosa brasileira. Mais do que roteiros de viagem, essas publicações são um convite para conhecer as múltiplas faces da espiritualidade paulista.