No extremo norte do litoral paranaense, onde o continente encontra o mar em um labirinto de ilhas e manguezais, uma experiência educacional diferenciada está transformando a forma como estudantes encaram a recuperação de conteúdos escolares. No Colégio Estadual do Campo Ilha Rasa, em Guaraqueçaba, cerca de 100 alunos participam desde outubro das atividades do programa Se Liga! É tempo de aprender mais!, iniciativa da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) que substitui a tradicional recuperação por experiências práticas, interdisciplinares e profundamente conectadas à realidade das comunidades insulares.

Criado em 2019, o programa tem como objetivo fortalecer a aprendizagem dos estudantes da rede estadual que apresentaram dificuldades ou defasagens ao longo do ano letivo. Atendendo alunos do ensino fundamental, médio, profissionalizante e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o Se Liga! acontece nas últimas semanas do ano letivo em todas as escolas do Estado, organizando suas ações em três frentes complementares: recuperação para quem não atingiu a média necessária, reforço para dificuldades pontuais e aprofundamento por meio de monitoria entre pares.

O secretário Estadual da Educação, Roni Miranda, explica que o programa busca garantir que o aluno inicie o próximo ano sem pendências. "Nosso objetivo é assegurar que os conteúdos trabalhados ao longo do ano sejam realmente compreendidos, retomando aprendizagens essenciais, esclarecendo dúvidas e fortalecendo as bases necessárias para que os alunos iniciem o próximo ano letivo com mais segurança e preparo. É um trabalho que respeita o ritmo de cada estudante e oferece as condições para que todos avancem", destaca.

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No Colégio Estadual do Campo Ilha Rasa, a implementação do programa ganhou contornos especiais. O diretor Aramis Oilke Barbosa conta que as atividades são pensadas para deixar o aprendizado mais leve e dentro da realidade da região. "Essa recuperação de conteúdo sai um pouco da rotina da avaliação formal, de fazer perguntas e de ficar só no papel. A gente traz isso para trabalhar os conteúdos dentro da realidade dos alunos, que residem nas ilhas da região", explica.

A conexão entre conteúdo programático e vivência local se manifesta em atividades criativas que transformam conceitos abstratos em experiências concretas. A professora de Matemática Cíntia Emíli Lopes da Silva desenvolveu o "morto vivo da classificação dos ângulos", que adapta a tradicional brincadeira infantil: "Além de ser dinâmico, eles nunca esquecem. Por exemplo, o 'morto vivo da classificação dos ângulos' envolve a famosa brincadeira de morto-vivo, porém, ao invés de ficar em pé ou se abaixar, os alunos devem fazer com os braços o ângulo anunciado pelo comandante, como agudo, obtuso, reto e raso, e aqueles que errarem o ângulo são eliminados", afirma.

Outra dinâmica que faz sucesso é o "mercadinho", onde os alunos trabalham o sistema monetário com operações com decimais. Cada estudante recebe um valor diferente e precisa administrar seus recursos para não faltar na hora das compras, aprendendo na prática conceitos matemáticos que muitas vezes parecem distantes da realidade.

As atividades interdisciplinares são especialmente significativas na região. Em "Mapas das comunidades - demarcação de sambaquis", os alunos uniram Matemática, Geografia e História a partir do estudo do território de Guaraqueçaba. Cada estudante desenhou o mapa da própria localidade e realizou a demarcação dos sambaquis - sítios arqueológicos com conchas, ossos e outros vestígios deixados por populações pré-coloniais -, compreendendo a importância histórica, cultural e ancestral desses locais. Para isso, utilizaram o plano cartesiano e ferramentas digitais como o GeoGebra e o Google Earth, que ajudaram na localização e na representação espacial dos pontos no território.

Já a atividade "Conhecimento Caiçara: construção de gráficos/tabelas" integrou Matemática e Língua Portuguesa a partir do levantamento de dados sobre as comunidades das ilhas. Os alunos pesquisaram o número de moradores, os peixes mais pescados e as épocas de pesca, organizaram essas informações em tabelas, gráficos e porcentagens e, em seguida, explicaram os resultados por meio de textos, destacando a importância de cada atividade para a comunidade.

Aramis Barbosa complementa que existe toda uma estrutura pedagógica por trás de cada atividade: "A gente consegue associar as atividades com os conteúdos programáticos da Seed-PR com a realidade do estudante. Uma das professoras levou os alunos no mangue para tirar caranguejo. Essa experiência mostra além do trabalho, mas como a ciência e matemática estão ali dentro ou sobre o ecossistema e eles podem fazer um estudo de caso".

O programa representa uma mudança de paradigma na abordagem da recuperação escolar, saindo do modelo tradicional de repetição de conteúdos para uma proposta que valoriza o contexto local, a interdisciplinaridade e as metodologias ativas. Nas comunidades insulares de Guaraqueçaba, onde a relação com o território é parte fundamental da identidade cultural, essa abordagem ganha significado especial, demonstrando que a educação pode ser ao mesmo tempo rigorosa academicamente e profundamente conectada com a realidade dos estudantes.