Em dezembro, enquanto as luzes piscam nas ruas e os shoppings lotam com compras de última hora, uma tradição mais antiga que o próprio Papai Noel ganha espaço em praças, igrejas e salas de estar por todo o Brasil: a montagem do presépio. Essas representações do nascimento de Jesus, com personagens esculpidos em madeira, barro, pedra ou mesmo plástico, são um marco do Natal brasileiro, mesclando fé, arte e, cada vez mais, turismo.
No interior de Minas Gerais, especificamente na cidade de Grão Mogol, na Cordilheira do Espinhaço, a 570 quilômetros de Belo Horizonte, está o que é considerado o maior presépio do mundo a céu aberto em caráter permanente. Chamado de Presépio Natural Mãos de Deus, ele ocupa uma área de 3,6 mil metros quadrados, com figuras esculpidas diretamente na pedra que atingem até 30 metros de altura. Idealizado pelo empresário Lúcio Marcos Bemquerer, que faleceu em 2021, o complexo foi doado à arquidiocese de Montes Claros e se tornou um ícone regional.
Mais do que uma atração religiosa, o presépio de Grão Mogol é um motor econômico. Segundo dados da secretaria de cultura de Minas Gerais, ele é o principal responsável pelo turismo religioso na região e tem experimentado um crescimento de 20% no número de visitantes ao ano. Em 2024, esse movimento fez crescer os empregos no setor em pelo menos 50%, demonstrando como uma tradição centenária pode gerar renda e desenvolvimento local.
Enquanto Minas Gerais aposta na grandiosidade da pedra, Brasília oferece uma experiência tecnológica. Na capital federal, o grupo Arautos do Evangelho promove o presépio Som, Luz e Movimento, com entrada gratuita. Lá, os personagens esculpidos ganham vida através de automação eletrônica, com cenas narradas e movimentos sincronizados. A tecnologia, trazida dos Estados Unidos, atrai famílias que buscam uma celebração natalina que une o tradicional ao moderno.
Mas o presépio não é apenas uma atração pública. Dentro das casas brasileiras, mesmo em uma era dominada por telas, a tradição de montar o pequeno cenário com a Sagrada Família, os pastores, os animais e os Reis Magos resiste. E para muitos, seu significado vai além da representação religiosa. O deputado federal Chico Alencar, apreciador de presépios, produziu um texto que foi narrado em vídeo pela atriz Fernanda Montenegro, grande dama do teatro brasileiro, e compartilhado nas redes sociais.
"O presépio denuncia a sociedade desigual. Ali estão Maria, José e o menino. Família sem terra e sem teto. Ali ocorrem os pastores da noite que viviam à margem para proteger suas ovelhinhas dos lobos vorazes", diz a interpretação de Fernanda, ecoando uma leitura social do símbolo natalino. Essa ressignificação mostra como o presépio permanece relevante, adaptando-se aos debates contemporâneos.
A arte também se apropria do tema. Em 2025, a artista carioca Cora Azedo, adepta do estilo naif, criou um presépio em acrílico sobre tela com cores vibrantes e anjos negros, que foi exposto em uma mostra na cidade de João Pessoa, na Paraíba. "Esse é o segundo presépio que eu faço", contou a artista, demonstrando como a tradição inspira novas linguagens visuais.
Seja na monumentalidade das esculturas em pedra de Minas Gerais, na tecnologia de Brasília, na crítica social das interpretações artísticas ou na simplicidade das montagens caseiras, o presépio segue vivo no Brasil. Ele é um fio que conecta o Natal religioso ao cultural, o antigo ao novo, e prova que, mesmo em tempos de mudanças, algumas tradições não só persistem como se renovam, ganhando novos espaços e significados a cada ano que passa.

