Com 8,9 mil quilômetros quadrados – área equivalente a um Distrito Federal e meio –, a ilha de Porto Rico carrega uma contradição geopolítica que persiste há mais de um século. Terra natal do cantor Bad Bunny, o território possui status político ambíguo: oficialmente é um Estado Livre Associado dos Estados Unidos, mas especialistas e movimentos locais o consideram uma colônia de Washington.
Localizada no Caribe, Porto Rico tem cerca de 3,2 milhões de habitantes onde predominam o idioma espanhol e a cultura latino-americana. Apesar de os porto-riquenhos terem livre trânsito nos EUA e poderem eleger o governador da ilha, não são um estado norte-americano. Isso significa que não votam para presidente dos EUA e não têm representantes com direito a voto no Congresso estadunidense.
Ao mesmo tempo, Porto Rico se submete às leis federais dos EUA, seus habitantes servem às Forças Armadas norte-americanas e o território abriga bases militares de Washington, sem participar das relações internacionais. "É um resquício neocolonial que persiste nessa primeira metade do século 21", avalia Gustavo Menon, professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Para as Nações Unidas (ONU), a autonomia administrativa impede classificar Porto Rico como colônia clássica. Porém, o Comitê Especial sobre Descolonização da ONU vem classificando o território como caso de "situação colonial". Em relatório de 2025, o especialista Koussay Aldahhak afirmou que "o Congresso dos EUA detém plenos poderes sobre Porto Rico".
O professor Menon explica que, para a elite política de Washington, o território é um "protetorado" dos EUA. "Os porto-riquenhos não votam para presidente, não têm representação política no Congresso dos EUA, mas estão sujeitos às leis federais e decisões de Washington", completa o especialista em América Latina.
Bad Bunny tem usado sua visibilidade global para destacar essa contradição. No show do intervalo do Super Bowl deste ano, o porto-riquenho cantou em espanhol – primeira vez nesse tipo de evento – e enalteceu as culturas latino-americanas. Durante a apresentação, que irritou o ex-presidente Donald Trump, Bad Bunny usou o slogan "Deus abençoe a América" para então citar todos os países latino-americanos, pedindo que a bênção fosse para todas as nações americanas.
Em suas letras, Bad Bunny frequentemente denuncia a influência dos EUA em Porto Rico. Em uma canção apresentada no Super Bowl, ele cita o exemplo do Havaí: "Porque eu não quero que façam com vocês o que aconteceu com o Havaí", alerta sobre a perda de identidade cultural.
A história de Porto Rico como território dos EUA começou em 1898, quando a guerra hispano-americana expulsou os espanhóis da ilha. De colônia espanhola, Porto Rico tornou-se colônia norte-americana. Em 1917, os porto-riquenhos ganharam cidadania estadunidense, e em 1952 o território foi declarado Estado Livre Associado, ganhando autonomia administrativa interna.
A população porto-riquenha já realizou sete referendos consultivos sobre o status político da ilha desde 1967. No último, em 2024, 58% votaram para se tornar um estado dos EUA, 29% optaram pela "livre associação" e 11% escolheram a independência. Porém, essas consultas não têm efeito prático, pois não são reconhecidas como vinculantes pelo Congresso dos EUA.
Enquanto o debate político continua, artistas como Bad Bunny exercem o que especialistas chamam de soft power – influência política branda no campo simbólico. "É por isso que, nessas representações artísticas, há uma tentativa de Porto Rico de se associar às mais de 30 nações latino-americanas", observa o professor Menon.
A ambiguidade de Porto Rico – culturalmente latino, politicamente subordinado aos EUA – permanece como uma das questões coloniais não resolvidas no século 21, enquanto sua população busca definir seu destino entre a assimilação completa, a associação atual ou a independência.

