Em um cenário global marcado por tensões e barreiras físicas, o Brasil e o Paraguai inauguraram nesta sexta-feira (19) a Ponte Internacional da Integração, uma estrutura de 760 metros que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, à cidade paraguaia de Presidente Franco. Durante a cerimônia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso carregado de simbolismo, lamentando que "há países que, ao invés de pontes, constroem muros".

"Tem gente querendo fazer guerra para não permitir que o outro passe pro seu lado. Nós aqui, sul-americanos, paraguaios e brasileiros, queremos dizer ao mundo que nós somos da paz", afirmou Lula, destacando o contraste entre a postura da região e conflitos em outras partes do planeta. A fala ecoou no evento que marcou a entrega da segunda ligação viária sobre o Rio Paraná entre as duas nações, seis décadas depois da inauguração da histórica Ponte da Amizade.

Com um vão-livre de 470 metros – o maior do continente – e duas pistas de 3,6 metros de largura cada, a ponte estaiada é sustentada por duas torres de 190 metros de altura, equivalentes a prédios de aproximadamente 54 andares. A obra, que consumiu R$ 1,9 bilhão em recursos do Brasil e do Paraguai, teve financiamento prioritário da Itaipu Binacional, que aportou R$ 712 milhões. Desse total, R$ 372 milhões foram diretamente para a construção da ponte, enquanto R$ 340 milhões estão sendo aplicados nas obras da Perimetral Leste, com conclusão prevista para novembro de 2025.

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O presidente brasileiro garantiu que equipes da Polícia Federal (PF), da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Receita Federal estarão presentes para a fiscalização do tráfego, que será liberado de forma gradual. "Vão transitar bilhões de dólares de interesse da economia brasileira e de interesse da economia paraguaia", projetou Lula, demonstrando entusiasmo com o potencial comercial da nova via. Ele explicou que a implementação faseada está relacionada com a infraestrutura do lado paraguaio, cujo presidente, Santiago Peña, inaugurará a parte da obra em seu país no sábado (20).

A estrutura tornou-se prioridade estratégica, integrada ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2012. O processo envolveu licitações em 2012 e 2014, licenciamento ambiental conduzido pelo Ibama – que emitiu a licença em fevereiro de 2017 – e uma estruturação institucional que definiu Itaipu como agente financiador em 2018. A construção física começou em 2019 e foi concluída em outubro de 2023, com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) como órgão proprietário e o governo do Paraná como executor.

Atualmente, a única conexão viária entre os dois países na região – a Ponte da Amizade – recebe um fluxo diário de 100 mil pessoas e 45 mil veículos, segundo dados da Receita Federal. A nova ponte, integrada a uma rodovia de 14,7 quilômetros que conecta a BR-277, promete reorganizar o tráfego de veículos pesados, desviando caminhões do centro urbano de Foz do Iguaçu e contribuindo para a mobilidade e segurança viária.

Na etapa inicial, a travessia será permitida apenas para caminhões sem carga ("em lastro") nos dois sentidos, seguindo horários específicos coordenados pela Receita Federal e PRF. Ônibus de turismo fretados serão autorizados "em breve", enquanto a liberação total para veículos de carga está prevista para ocorrer entre o fim de 2026 e o início de 2027, condicionada à conclusão do Corredor Metropolitano del Este, no lado paraguaio.

O evento ocorre em um momento de reaproximação entre os dois países, que retomam em dezembro as negociações sobre Itaipu. Paralelamente, Lula tem defendido pautas sociais, como maior acesso de catadores a serviços públicos, e inaugurou recentemente outra ponte importante, sobre o Rio Araguaia, ligando Tocantins e Pará. A Ponte da Integração, portanto, se consolida não apenas como uma obra de infraestrutura, mas como um símbolo da diplomacia e da integração regional sul-americana.