Uma nova esperança para a recuperação de movimentos chegou a Curitiba nesta terça-feira (03). João Luiz Miquelini, 70 anos, morador de Colombo, tornou-se o primeiro paciente a receber a aplicação da polilaminina no Hospital do Trabalhador (HT), onde já havia sido atendido após sofrer uma queda de aproximadamente 3 metros de altura em dezembro de 2025. O acidente resultou em fratura na coluna e o deixou sem movimentos abaixo da cintura.
A polilaminina é um composto experimental brasileiro, derivado da laminina, uma proteína encontrada na placenta. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a substância tem como objetivo regenerar nervos após lesões na medula espinhal, atuando como um "andaime" que facilita o crescimento e a reconexão neural. Embora represente uma esperança para paraplégicos e tetraplégicos, o medicamento ainda está em fase de pesquisa clínica e não possui aprovação final da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso amplo.
Para João, essa aplicação significa a possibilidade concreta de recuperar os movimentos das pernas e voltar a andar. "São 80 dias assim. A esperança se renova e é grande. Agora é ir para a fisioterapia e ficar bom logo. Estávamos nessa expectativa, batalhando e hoje realizou o sonho", afirmou o paciente, já em seu quarto após o procedimento.
A família acompanha com ansiedade cada etapa do processo. Viviane Miquelini, filha de João, compartilha a expectativa: "Para a gente já é uma grande notícia ele estar recebendo essa aplicação, fico imaginando para ele, a esperança de poder voltar a ter os movimentos, a andar".
O tratamento foi possível através do Programa de Uso Compassivo da Anvisa, que permite que pacientes com doenças graves tenham acesso a medicamentos ou produtos de terapia avançada ainda sem registro, desde que demonstrem promessa de benefício terapêutico. Nesse processo, a aplicação pode ocorrer em até 90 dias após a lesão.
"O paciente assina um termo informando que gostaria de receber o composto e que está ciente que ainda não se tem os termos de efeitos adversos descritos e evidências estabelecidas, que o estudo clínico está sendo realizado e que, apesar disso, gostaria de receber o composto. Esse pedido passa por uma comissão de segurança da Anvisa, que autoriza ou não a aplicação", explicou o médico e pesquisador Arthur Luiz Freitas Forte.
O procedimento foi realizado pelo médico neurocirurgião João Elias Ferreira El Sarraf, um dos apenas quatro médicos capacitados no país para aplicar a polilaminina. "A medicação é aplicada em cima da lesão medular, em centro cirúrgico, com sedação e anestesia local. Definimos o melhor ponto de aplicação. É como se fosse uma desconexão, tem dois pontos desconectados e a polilaminina agiria 'unindo' esses dois pontos", detalhou o especialista.
No Paraná, essa foi a oitava aplicação da polilaminina, enquanto no Brasil já foram realizadas 30. O avanço da pesquisa chamou a atenção do governo estadual. No início da tarde desta terça-feira, pesquisadores apresentaram a iniciativa ao governador Carlos Massa Ratinho Junior no Palácio Iguaçu, em Curitiba.
"Colocamos toda a rede de saúde do Estado à disposição, da organização do transporte da polilaminina ao treinamento de outros médicos para estarem aptos a fazer a aplicação", afirmou o governador. "É um medicamento que vai mudar a humanidade, que foi descoberto por uma brasileira que conduz o estudo com uma equipe médica composta por um paranaense".
Ratinho Junior colocou à disposição apoio logístico da Casa Militar para transporte do medicamento e de pacientes dentro da janela de 72 horas considerada ideal para a pesquisa, e mencionou que a Fundação Araucária pode auxiliar na expansão do treinamento de médicos aplicadores.
A operacionalização rápida é crucial para o sucesso do tratamento, conforme explicou Mitter Mayer, médico pesquisador e CEO da Lamilamb: "É um processo muito rápido e ágil. Assim que o paciente dá entrada no hospital, o médico responsável deve fazer a avaliação do quadro e se ele é elegível para o tratamento. Em seguida, protocolamos o caso na Anvisa e o medicamento precisa chegar até o local em até 72 horas. O apoio dos estados é muito importante na identificação, na logística e também no pós, com intensa fisioterapia".
O secretário de Saúde do Paraná, Beto Preto, destacou a importância desse avanço científico para o tratamento de lesões graves que levam à paraplegia. Ele também colocou o Hospital de Reabilitação à disposição para auxiliar pacientes do Paraná e de outros estados. "Além dessa descoberta imensa, a fisioterapia depois é essencial para garantir a possibilidade de retomada dos movimentos, e temos estrutura e equipe prontas para isso", afirmou.
"Sempre defendi e continuarei defendendo a ciência. A polilaminina é uma esperança para as pessoas vítimas de traumas graves. Os resultados são importantes e nós tivemos a oportunidade de fazer aqui no Hospital do Trabalhador, o primeiro caso feito na nossa Capital", complementou o secretário.
A pesquisa com a polilaminina começou há mais de 25 anos sob a liderança da doutora Tatiana Coelho de Sampaio, com apoio de produção do Laboratório Cristália. Estudos preliminares no âmbito acadêmico mostraram resultados promissores, com alguns pacientes recuperando movimentos, mas ainda são necessários estudos para validar sua eficácia e segurança, o que deve levar alguns anos.
Enquanto aguarda a aprovação da Anvisa para iniciar a fase 1 dos estudos clínicos, a polilaminina segue sendo uma luz no fim do túnel para pacientes como João Luiz Miquelini e suas famílias, que veem na ciência brasileira a possibilidade de reescrever histórias marcadas por traumas e limitações físicas.

