A Petrobras divulgou uma nota nesta semana afirmando que possui capacidade para reduzir o impacto da alta internacional do petróleo no mercado brasileiro, ao mesmo tempo em que mantém a rentabilidade da companhia. O posicionamento ocorre em um momento de grande volatilidade nos preços globais do barril, impulsionada por tensões geopolíticas e pela guerra no Irã.

"Em um cenário em que guerras e tensões geopolíticas ampliam a volatilidade do mercado internacional de energia, a Petrobras reafirma seu compromisso com a mitigação desses efeitos sobre o Brasil", disse a estatal, em comunicado encaminhado à Agência Brasil. A empresa acrescentou que, por questões concorrenciais, não pode antecipar decisões, mas segue comprometida com uma atuação "responsável, equilibrada e transparente para a sociedade brasileira".

Segundo a Petrobras, a possibilidade de reduzir os efeitos da inflação global decorrente da alta do petróleo se deve a uma mudança em sua estratégia comercial, que passou a considerar "as melhores condições de refino e logística". "O que nos permite promover períodos de estabilidade nos preços ao mesmo tempo que resguarda a nossa rentabilidade de maneira sustentável. Essa abordagem reduz a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro", detalha o comunicado.

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Especialistas apontam que essa margem de manobra é resultado de uma mudança de política interna. Ticiana Álvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo (Ineep), explica que a capacidade de mitigação se tornou possível porque a Petrobras abandonou, em 2023, a política de paridade do preço internacional (PPI), que determinava a revenda de combustíveis de acordo com os preços globais. "A política da Petrobras acompanhava 100% a trajetória dos preços internacionais. Essa política modificou e agora leva em consideração fatores internos, que é essa margem de manobra que a Petrobras tem", disse a especialista.

No entanto, Ticiana Álvares ressalva que a ação da Petrobras tem efeito limitado e temporário. Um dos fatores que restringem esse poder de contenção é o fato de o Brasil ainda ser um grande importador de derivados, como gasolina e diesel. Além disso, o processo de privatização de algumas refinarias, como a Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia, reduz os mecanismos diretos de controle sobre os preços finais. "Logo, você tem menos mecanismos de segurar o preço dessas refinarias que foram privatizadas do que, por exemplo, a Petrobras tem", finalizou a diretora do Ineep.

O cenário internacional que motiva a preocupação da Petrobras e dos consumidores brasileiros é marcado por forte instabilidade. A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, no Oriente Médio – por onde trafegam cerca de 25% do petróleo mundial –, elevaram o preço do barril no mercado global para patamares recordes. Na segunda-feira (9), o valor chegou a US$ 120. Houve uma leve queda posterior, após declarações do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, de que a guerra estaria próxima do fim, mas as ameaças retomadas por Trump contra o Irã mantêm o mercado em alerta. Atualmente, o barril do tipo Brent é comercializado abaixo dos US$ 100, mas ainda bem acima da média de cerca de US$ 70 vigente antes do conflito.

A postura anunciada pela Petrobras representa uma tentativa de blindagem do mercado doméstico contra os solavancos do preço internacional, um tema sensível para a inflação e o bolso do brasileiro. A empresa busca equilibrar a necessidade de proteger sua rentabilidade – essencial para investimentos e dividendos – com um papel social de amenizar os impactos diretos de crises externas sobre os preços dos combustíveis no país. O sucesso e a duração dessa estratégia, porém, dependem de variáveis complexas, como a evolução do conflito no Oriente Médio, as cotações futuras do petróleo e a dinâmica do próprio parque refinador nacional.