No Paraná, a merenda escolar vai muito além de simplesmente matar a fome dos estudantes. É uma política pública estruturada, com investimentos robustos e um olhar cuidadoso para a qualidade, a segurança alimentar e a inclusão. O programa Mais Merenda, gerido pelo Governo do Estado por meio da Secretaria de Estado da Educação e do Instituto de Desenvolvimento Educacional do Paraná (Fundepar), é um dos maiores do país em alcance, atendendo diariamente cerca de 1 milhão de alunos em 2 mil escolas estaduais. Em 2025, o investimento total na alimentação escolar chegou a R$ 510 milhões, um montante que reflete a importância estratégica dada à questão.

O prato do dia: investimento, volume e foco em orgânicos

O programa é responsável por aproximadamente 1,5 milhão de refeições servidas a cada dia letivo, com os estudantes recebendo de três a cinco refeições. Desse universo, um dado se destaca: em 2025, foram destinadas cerca de 5 mil toneladas de alimentos orgânicos para as escolas, o que representou 11% de todos os produtos adquiridos via Fundepar naquele ano. Para garantir essa oferta, R$ 54 milhões do orçamento total foram aplicados especificamente na aquisição de alimentos livres de agrotóxicos.

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A cadeia de fornecimento também movimenta a economia local. Por meio do Fundepar, foram adquiridas aproximadamente 17 mil toneladas de itens como ovos, frutas, verduras, legumes, hortaliças e pães. Esses produtos vêm de cerca de 20 mil famílias de agricultores familiares, sendo que 1.400 delas são especializadas na produção orgânica, fortalecendo a agricultura familiar no estado.

Mais que comida: impacto na educação e na permanência na escola

Para o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda, a política adotada tem um propósito claro. "A política de alimentação escolar adotada pelo Governo do Estado e pela Secretaria de Estado da Educação parte do entendimento de que a oferta de refeições nutricionalmente adequadas impacta diretamente o desenvolvimento cognitivo dos estudantes, a frequência escolar, o desempenho acadêmico e a redução da evasão", pondera. Essa visão é compartilhada por Angelo Mortella, chefe do Departamento de Nutrição e Alimentação do Fundepar, que vê a merenda como um fator estratégico. "A alimentação escolar exerce um papel tão relevante que figura entre os principais motivos para que o aluno frequente a escola, evidenciando a importância desse fator no planejamento educacional", informa.

Controle de qualidade rigoroso e pioneiro

Para garantir que o que chega ao prato do aluno é seguro e de qualidade, o Paraná adota um protocolo rigoroso de controle. Anualmente, são realizadas cerca de 500 análises laboratoriais dos alimentos fornecidos, como arroz, feijão, ovos, laticínios, massas, congelados e itens de panificação. Em 2025, 438 itens foram submetidos a essas análises, resultando em mais de 7 mil determinações microbiológicas para identificar a presença de micro-organismos patogênicos, como Salmonella spp., Escherichia coli, Bacillus cereus e coliformes.

Esse protocolo, considerado pioneiro no Brasil, é executado pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) em parceria com o Fundepar, e segue as diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). O processo é completo, indo da inspeção das embalagens e conferência na entrega até as análises laboratoriais detalhadas. Segundo Rosangela Mara Slomski Oliveira, coordenadora de Planejamento da Alimentação Escolar do Fundepar, o estado é uma referência. "O Paraná é reconhecido nacionalmente como um laboratório de referência, atraindo fornecedores de todo o País, como aconteceu com a água de coco, que passou por todo esse processo antes de ser incorporada ao cardápio escolar", diz.

A aceitação pelos estudantes também é uma etapa crucial. O processo inclui testes nas escolas com a participação dos alunos, buscando uma aprovação mínima de 85% para os itens e preparações.

Cardápio adaptado: inclusão no prato

Em 2025, a política de alimentação escolar inclusiva foi ampliada, garantindo cardápios adaptados para mais de 2 mil estudantes da rede estadual. A iniciativa atende alunos com necessidades alimentares específicas, como diabetes, obesidade e doença celíaca, além daqueles que seguem dietas por motivos religiosos ou valores pessoais, como vegetarianos e veganos. "Nosso compromisso é assegurar que todos tenham acesso a uma alimentação adequada, segura e de qualidade dentro da escola respeitando a condição de cada estudante", afirma o secretário Roni Miranda.

A adaptação ocorre em todas as etapas, da compra ao preparo. Os cardápios são elaborados por nutricionistas com base no Guia Alimentar para a População Brasileira. Para estudantes com diabetes, são oferecidos itens como bolachas integrais e leite semidesnatado. Já para os com doença celíaca, há recursos para refeições sem glúten, com protocolos rigorosos para evitar contaminação cruzada.

Regionalidade e novidades no cardápio

O cardápio paranaense também ganhou novidades e um reforço na valorização dos produtos regionais em 2025. Itens como pão queijo, água de coco e polpas de frutas nativas (guabiroba, juçara e araçá) foram incorporados, ampliando a diversidade nutricional. "A inclusão desses itens contribui para o fortalecimento de uma alimentação mais equilibrada, com maior oferta de vitaminas, além de estimular hábitos alimentares saudáveis desde a infância e adolescência", pondera Roni Miranda.

Receitas à base de pinhão, como o Entrevero de Pinhão e o Risoto de pinhão, estrearam, enriquecendo a cultura alimentar local. Em escolas indígenas, por exemplo, o cardápio passou a incluir preparações tradicionais como o rorá (à base de fubá). "Quando o estudante se reconhece no que é servido na escola, por meio de alimentos regionais, saudáveis e preparados com cuidado, ele passa a valorizar ainda mais esse espaço. A alimentação cria vínculo, pertencimento e faz com que o aluno queira estar na escola", destaca o secretário.

Assim, a merenda escolar no Paraná se consolida como um exemplo de política pública integrada, que une segurança alimentar, apoio à agricultura familiar, inclusão, educação nutricional e valorização da cultura local, tudo com um objetivo maior: garantir que o estudante tenha, na escola, um ambiente acolhedor e propício para aprender e se desenvolver.