O governo do Paraná deu um passo significativo no reforço à segurança pública ao lançar, nesta quarta-feira (10), a segunda fase do programa Olho Vivo. A iniciativa, que já conta com cinco mil câmeras em operação, ganhará mais 21,5 mil equipamentos inteligentes espalhados pelo estado, formando o que será o mais avançado sistema de monitoramento do país. O investimento total previsto é de R$ 400 milhões, recursos que serão repassados aos municípios em forma de apoio financeiro.

A principal novidade desta etapa é a ampliação do uso de inteligência artificial (IA) para uma fase de "investigação assistida". As câmeras deixam de depender apenas da observação humana e passam a contar com ferramentas de análise automática. Esses modelos funcionam por meio da tecnologia de aprendizado de máquina e redes neurais, permitindo que a plataforma analise as imagens de forma ampla, compreendendo seu contexto, elementos e ações capturadas.

Como funciona na prática

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A plataforma utiliza modelos avançados de visão computacional e inteligência artificial que tornam qualquer imagem "buscável". Isso significa que a polícia poderá investigar crimes com muito mais profundidade: antes, durante e depois da ocorrência. Ferramentas como busca semântica transformam qualquer palavra, descrição ou fato em uma consulta direta às câmeras.

Por exemplo, será possível pesquisar "modelo X branco na região Y" ou "veículo com carretinha" em uma área que conta com os equipamentos inteligentes, e o sistema trará imagens e informações que batam com a pesquisa. Se uma vítima relatar "um carro com para-choque amassado ou uma moto com adesivo na lateral", o sistema é capaz de localizar nas câmeras os registros de motocicletas no horário do fato, cruzar padrões visuais compatíveis, identificar trajetórias prováveis e apontar possíveis rotas de fuga.

Veículos com registro de furto ou roubo que passarem pelas câmeras terão um alerta emitido pelo sistema. A cada equipamento que ele passar ficará registrada data, hora e rota, contribuindo para que as forças de segurança possam atuar para recuperá-lo. A tecnologia pode ser aplicada para diversos tipos de veículos: carros, motos, caminhões, ônibus e até bicicletas.

Pesquisas semelhantes para identificar suspeitos, como cor da roupa, também poderão ser feitas. No caso de pessoas desaparecidas, a descrição física da pessoa e a busca em locais próximos onde houve o desaparecimento vão ajudar a Polícia Civil na resolução desse tipo de crime. No futuro, será possível o reconhecimento facial de procurados e desaparecidos, gerando alertas para as forças de segurança.

Ampliação da rede e adesão dos municípios

Nesta segunda fase, as primeiras 1,5 mil câmeras já estão sendo instaladas. Outros 20 mil equipamentos serão adquiridos pelos municípios com apoio do estado. No total, o programa contará com 26,5 mil câmeras. O programa funcionará de forma conjunta entre a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), a Secretaria de Estado das Cidades (Secid) e a Superintendência-Geral de Governança de Serviços e Dados (SGSD).

Os municípios que aderirem ao programa receberão recursos do estado para compra dos equipamentos, seguindo especificações técnicas. O processo inclui manifestação de interesse via ofício para a Sesp, elaboração e aprovação do projeto de instalação, assinatura do termo de adesão, aquisição dos equipamentos pelas prefeituras, e finalmente a configuração, integração e início da operação pela Polícia Militar.

Primeiras cidades e prazos

Neste primeiro momento, 22 cidades estão aptas a receberem as câmeras, em um total de 1,5 mil equipamentos. São elas: Curitiba, Araucária, Fazenda Rio Grande, Piraquara, Campina Grande do Sul, Campo Largo, Pinhais, Colombo, Paranaguá, Pontal do Paraná, Guaratuba, Morretes, Matinhos, São José dos Pinhais, Guarapuava, Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu, Umuarama e Guaíra. Juntas, elas somam uma população de 5,8 milhões de habitantes, cerca de 50% do estado.

A expectativa é que a instalação dos primeiros equipamentos seja finalizada nos primeiros meses de 2026, com prioridade para grandes cidades (devido ao grande fluxo de pessoas no fim do ano) e Litoral (que deve receber milhares de pessoas durante a temporada de verão). Além do volume de moradores, a escolha por esses municípios se deu de maneira estratégica, abrangendo diversas regiões do estado.

Privacidade e segurança dos dados

O governo do Paraná garante que o monitoramento de pessoas será restrito àquelas que tenham algum tipo de restrição, como mandado de prisão em aberto, e veículos com alerta de furto e roubo, por exemplo. A plataforma não tem capacidade de identificação de pessoas que não sejam procuradas ou tenham mandado criminal em aberto. O Olho Vivo segue a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) quanto à segurança e à privacidade das informações da população.

O sistema será operado por policiais capacitados para tal função, com logins próprios. Toda ação realizada no sistema, inclusive cada busca, fica vinculada ao CPF do agente, tornando tudo totalmente auditável, rastreável e sujeito a investigação interna em caso de abuso. Além disso, a própria tecnologia ajuda a prevenir desvios: modelos avançados de inteligência artificial monitoram padrões de uso e identificam imediatamente comportamentos atípicos.

Referências internacionais

O Olho Vivo será o mais avançado programa de monitoramento voltado à segurança pública no Brasil e um dos maiores do mundo. Ele é inspirado em iniciativas semelhantes realizadas em países como Reino Unido, Singapura e Estados Unidos. No Reino Unido, por exemplo, são cerca de 18 mil câmeras com uma média de 90 milhões de leituras diárias. A título de comparação, o Paraná contará, quando estiver em plena operação, com 26,5 mil câmeras.

O governo do Paraná realiza desde agosto deste ano uma fase de testes em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba, validando a tecnologia antes da expansão para todo o estado. Com essa ampliação, o estado espera reduzir significativamente o tempo entre o crime e a resposta policial, dando mais agilidade e eficiência ao trabalho das forças de segurança.