Quando se fala em educação inclusiva no Brasil, muitas vezes o foco recai sobre estudantes com deficiências ou dificuldades de aprendizagem. Mas a inclusão também significa reconhecer e desenvolver talentos excepcionais. No Paraná, uma iniciativa pioneira está transformando a vida de milhares de alunos com altas habilidades ou superdotação através das Salas de Recursos Multifuncionais, espaços especializados que complementam e enriquecem o processo de aprendizagem.
Atualmente, a rede estadual de ensino do Paraná conta com 315 salas destinadas ao Atendimento Educacional Especializado (AEE), distribuídas em 167 escolas. Esses ambientes são desenvolvidos especificamente para oferecer desafios adequados ao ritmo e potencial dos estudantes com habilidades acima da média, garantindo engajamento e desenvolvimento pleno, tanto acadêmico quanto socioemocional.
"Hoje, a rede conta com cerca de 12 mil estudantes com altas habilidades matriculados. São alunos que se destacam por habilidades acima da média em diferentes áreas, como o desempenho intelectual e acadêmico, a liderança, as aptidões psicomotoras e artísticas, que podem aparecer de forma conjunta ou isolada", ressalta o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda.
Em 2026, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR), vai ampliar ainda mais essa estrutura. Outras 11 unidades escolares irão expandir suas estruturas para receber esse atendimento: sete com solicitação de abertura de novas salas e quatro com pedido de ampliação da carga horária já existente.
"Nesse contexto, a ampliação das Salas de Recursos Multifuncionais asseguram condições adequadas para que esse potencial seja desenvolvido de maneira integral, com acompanhamento especializado e propostas alinhadas aos interesses dos alunos", complementa o secretário.
Como funciona o atendimento
"Os alunos identificados com altas habilidades/superdotação, nas salas de recursos multifuncionais, recebem enriquecimento curricular com base nos assuntos de interesse e conhecimento deles e, a partir disso, exploram a capacidade de superar desafios desenvolvendo propostas de pesquisa, estudos e projetos", explica a chefe do Departamento de Educação Inclusiva (DEIN) da Seed-PR, Maíra de Oliveira.
Para participar do AEE, o estudante identificado com altas habilidades/superdotação permanece regularmente matriculado e frequentando as aulas no seu turno de escolarização. Nos casos dos alunos que estudam em período regular, o atendimento nas Salas de Recursos Multifuncionais ocorre no contraturno, como complemento à formação.
Já para os estudantes matriculados em escolas de tempo integral, o AEE é realizado no próprio turno, de forma integrada, com a atuação de professores especialistas em educação especial em conjunto com os docentes dos componentes curriculares, dentro da sala de aula.
Escola referência em Colombo
Em Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, o Colégio Estadual Vereador Raulino Costacurta se tornou uma escola de referência em Altas Habilidades/Superdotação. A unidade conta com cerca de 120 alunos que frequentam as salas de recursos multifuncionais.
A professora de Educação Física pós-graduada em Educação Especial do colégio, Raquel de Carvalho, explica que é importante identificar os alunos com Altas Habilidades para que eles possam explorar melhor seus conhecimentos. "Muitas vezes, para evitar uma situação de constrangimento, o aluno que tem altas habilidades se omite ou deixa de ser participativo na sala de aula regular", conta.
Elma Marcelo de Almeida, professora de referência e identificadora da escola, destaca o papel fundamental da família no processo de identificação. "Nós realizamos ações de orientação nas escolas e disseminamos informações sobre o tema, mas o processo se torna mais eficaz quando os pais buscam informações, questionam e solicitam a participação no protocolo de identificação. Esse envolvimento tem crescido ao longo do tempo", afirma.
Projetos que transformam
Um dos projetos desenvolvidos nas Salas de Recursos Multifuncionais do Colégio Estadual Vereador Raulino Costacurta é o "Mãos que Protegem", idealizado pelos estudantes Fábio Lima de Mello, de 15 anos, e Luiz Eduardo Candido do Carmo, de 14, ambos do 9º ano, durante uma maratona de empreendedorismo proposta à escola.
Sensibilizados com os riscos enfrentados por coletores de lixo urbano, como cortes com materiais perfurantes e ataques de animais, os alunos desenvolveram uma ferramenta manual em formato de mão mecânica, resistente e de baixo custo, pensada para ser utilizada apenas em situações de risco. O dispositivo permite segurar e prender resíduos à distância, funcionando como um instrumento de proteção semelhante a um alicate isolante, reduzindo a exposição direta do trabalhador a perigos durante a coleta.
A proposta surgiu a partir de pesquisas realizadas pelos próprios alunos e tem potencial de aplicação prática, inclusive como produto a ser adotado por prefeituras e empresas de limpeza urbana.
Como identificar altas habilidades
A chefe do Departamento de Educação Inclusiva (DEIN), Maíra de Oliveira, orienta como prosseguir em caso de identificação de características de Altas Habilidades/Superdotação. "Aos pais e alunos que identifiquem alguma habilidade específica ou que vai além do contexto atual, temos programas de identificação para esses estudantes nas nossas escolas de referência. É só procurar o Núcleo Regional de Educação da região para a aplicação do protocolo de identificação", explica.
A identificação de estudantes com Altas Habilidades/Superdotação na rede estadual do Paraná é feita por meio de um protocolo específico, aplicado por professores capacitados em escolas de referência e no Atendimento Educacional Especializado (AEE).
O processo envolve a observação sistemática do comportamento do aluno ao longo do tempo, aplicação de questionários respondidos pelo estudante, pela família e por professores, além de atividades pedagógicas e avaliações que analisam indicadores como criatividade, envolvimento com a tarefa, raciocínio lógico, liderança e habilidades acadêmicas ou artísticas. Em alguns casos, laudos e testes complementares, como avaliações cognitivas, podem integrar o parecer final, que orienta o encaminhamento do estudante para as Salas de Recursos Multifuncionais.
Evolução significativa
Desde 2022, com a criação do Projeto Altas Habilidades/Superdotação Paraná, desenvolvido pelo Departamento de Educação Inclusiva (DEIN) e pelo Núcleo de Atividades para Altas Habilidades/Superdotação Paraná (NAAH/S) da Seed-PR, a identificação e acesso ao atendimento educacional especializado dos estudantes paranaenses têm evoluído significativamente. Em 2025 cerca de 12 mil alunos foram identificados e matriculados no AEE. Antes do projeto este número flutuava entre 900 e 1,3 mil por ano.
Capacitação constante dos professores
O DEIN-NAAH/S Paraná possui uma equipe de profissionais que oferece apoio permanente aos professores que atuam com esse público. Esse apoio se dá por meio de plantões tira-dúvidas, cursos de capacitação, reuniões técnicas e orientações pedagógicas. Há um canal direto que se mantém aberto e disponível para que os professores dialoguem, apresentem suas dúvidas e recebam orientações técnicas e pedagógicas com relação a identificação e atendimento desses estudantes.
A professora Elma também explica que as habilidades e interesses desses estudantes podem variar e os treinamentos frequentes para diversas áreas os ajudam a se manter atualizados. "Os professores de educação especial já receberam treinamentos de robótica, de xadrez, de RPG, de literatura criativa, escrita criativa, artes, automação etc., porque eles não têm todas as habilidades, e à medida que surgem novos interesses, surgem novos treinamentos", conta.
O investimento do Paraná na educação inclusiva para alunos com altas habilidades representa um avanço significativo na valorização de talentos que muitas vezes passam despercebidos no sistema educacional tradicional. Com a ampliação das Salas de Recursos Multifuncionais, o estado reforça seu compromisso com uma educação que reconhece e desenvolve o potencial de todos os estudantes, criando condições para que habilidades excepcionais se transformem em contribuições significativas para a sociedade.

