Em um sermão de Natal marcado por um tom excepcionalmente direto, o papa Leão XIV criticou duramente as condições dos palestinos na Faixa de Gaza durante a celebração desta quinta-feira (25) na Basílica de São Pedro. O primeiro pontífice norte-americano da história, eleito em maio para suceder o papa Francisco, desviou do estilo normalmente solene e espiritual da data para fazer um apelo humanitário contundente.

"Como, então, podemos não pensar nas tendas em Gaza, expostas por semanas à chuva, ao vento e ao frio?", questionou Leão XIV durante a homilia, ao relacionar a história do nascimento de Jesus em um estábulo com a situação atual dos desabrigados no conflito israelense-palestino. Segundo o papa, a narrativa bíblica mostra que Deus havia "armado sua frágil tenda" entre as pessoas do mundo.

Esta foi a primeira celebração natalina de Leão XIV como líder da Igreja Católica, e observadores destacam que seu estilo mais calmo e diplomático contrasta com o de seu antecessor. Apesar de geralmente evitar referências políticas em seus sermões, o pontífice tem se manifestado repetidamente sobre a situação em Gaza nos últimos meses. Em novembro, ele disse a jornalistas que a única solução para o conflito de décadas deve incluir a criação de um Estado palestino.

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O cenário descrito pelo papa reflete um contexto humanitário crítico. Israel e o Hamas concordaram com um cessar-fogo em outubro, após dois anos de intenso bombardeio israelense e operações militares que se seguiram ao ataque de combatentes liderados pelo Hamas contra comunidades israelenses em outubro de 2023. Segundo agências humanitárias, ainda há muito pouca ajuda chegando a Gaza, onde quase toda a população está desabrigada.

Durante o culto, que reuniu milhares de pessoas na basílica, Leão XIV também lamentou as "feridas abertas" deixadas pelos conflitos ao redor do mundo. "Frágil é a carne das populações indefesas, provadas por tantas guerras, em andamento ou concluídas, deixando para trás escombros e feridas abertas", declarou. Ele ainda criticou o recrutamento de jovens para combates: "Frágeis são as mentes e as vidas dos jovens forçados a pegar em armas, que nas linhas de frente sentem a insensatez do que lhes é pedido".

Na tradicional mensagem e bênção "Urbi et Orbi" (Para a Cidade e o Mundo), proferida da sacada central da Basílica de São Pedro para milhares de pessoas na Praça de São Pedro, o papa ampliou seu apelo pelo fim de conflitos globais. Ele mencionou especificamente as situações na Ucrânia, Sudão, Mali, Mianmar, Tailândia e Camboja, entre outros países.

Sobre a Ucrânia, Leão XIV afirmou que a população tem sido "atormentada" pela violência e pediu que "o clamor das armas cesse". Para Tailândia e Camboja, onde combates na fronteira completam três semanas com pelo menos 80 mortos, ele apelou pela restauração da "antiga amizade" entre as nações, "para trabalhar em direção à reconciliação e à paz".

O pontífice também abordou a questão migratória, tema que tem sido central em seu trabalho inicial. Em uma bênção de Natal posterior, ele lamentou a situação dos migrantes e refugiados que "atravessam o continente norte-americano". Embora no passado tenha criticado a repressão à imigração durante o governo do ex-presidente dos EUA Donald Trump, Leão XIV não fez menções diretas a autoridades específicas nesta quinta-feira.

No entanto, durante sermão na véspera de Natal, na quarta-feira (24), o papa foi enfático ao relacionar a assistência aos necessitados com valores religiosos fundamentais: "se recusar a ajudar pobres e estrangeiros é o mesmo que rejeitar o próprio Deus". A declaração reforça o tom social que tem caracterizado seus primeiros meses de pontificado, mantendo continuidade com temas caros ao papa Francisco, mas com uma abordagem distinta.

Analistas veem no discurso natalino de Leão XIV um equilíbrio entre a tradição espiritual da data e um engajamento humanitário mais explícito, sinalizando possíveis direções para seu papado enquanto a comunidade internacional acompanha seus próximos passos diante de conflitos que, segundo suas próprias palavras, continuam a deixar "escombros e feridas abertas" pelo mundo.