Na Praça XV, região central do Rio de Janeiro banhada pela Baía de Guanabara, um palácio construído em estilo colonial português se destaca não apenas pela arquitetura, mas por ser testemunha viva da história do Brasil. O Paço Imperial, inaugurado em 1743, já foi Casa dos Vice-Reis do Brasil, sede do Império e, há exatamente 40 anos, abriga um centro cultural que se tornou referência na cena artística carioca.

Para celebrar as quatro décadas de funcionamento como Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial, o prédio histórico abre, neste sábado (28), a exposição Constelações – 40 anos do Paço Imperial. A mostra reúne cerca de 160 obras de mais de 100 artistas, cada um com ligação especial com o espaço de exposições. A curadoria é de Claudia Saldanha, Ivair Reinaldim e da equipe do próprio Paço.

Entre os nomes presentes estão artistas consagrados como Adriana Varejão, Amilcar de Castro, Anna Maria Maiolino, Arthur Bispo do Rosário, Beatriz Milhazes, Hélio Oiticica, Luiz Aquila, Lygia Clark, Marcela Cantuária e Roberto Burle Marx. A exposição fica em cartaz até 7 de junho, com entrada gratuita.

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Um palácio com história

O Paço Imperial carrega em suas paredes séculos de história brasileira. Construído originalmente como Paço Real, foi lá que Dom João VI recebia súditos para a tradicional cerimônia do beija-mão durante o período colonial. No Império, quando recebeu o nome atual, o palácio foi palco do histórico Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, quando o príncipe regente Dom Pedro I recusou voltar para Portugal.

No primeiro andar, a sala Treze de Maio homenageia a assinatura da Lei Áurea, que acabou com a escravidão no país em 1888. Foi dentro do Paço que a princesa Isabel assinou o texto da lei. O local também testemunhou as últimas horas do imperador deposto Pedro II no Brasil, antes de seu exílio para Portugal após a Proclamação da República em 1889.

Após o fim do Império, o prédio chegou a abrigar a Agência Central dos Correios e Telégrafos. Tombado em 1938, desde 1985 funciona como centro cultural vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia do Ministério da Cultura. Com 40 anos de atividade cultural, supera até o vizinho Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), de 1989, como o mais longevo da região central do Rio.

O conceito de constelações

O curador Ivair Reinaldim explicou à Agência Brasil que o nome Constelações remete a um conceito do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), que via constelações como desenhos entre as estrelas. "A ideia de constelação é de não ter hierarquia, não ter linearidade, não ter assimetrias de coisas que são mais importantes do que outras", disse.

"O que a gente tentou fazer é trabalhar com obras de artistas de diferentes gerações, de diferentes contextos, contemporâneos, modernos, populares, jovens, velhos, consagrados e não consagrados, misturando todo mundo", detalhou o curador.

A curadora Claudia Saldanha, também diretora do Paço, complementa que a ideia de constelação se reflete na liberdade do visitante: "Sempre gostamos quando o visitante faz o seu próprio percurso. Pode começar pelo primeiro ou segundo andar, pode entrar por qualquer um dos portões".

"A mostra não tem uma cronologia, foi uma decisão da curadoria não classificar, não categorizar, não criar barreiras nem distinções entre as obras", completa Saldanha.

Obras e espaços

Os visitantes terão à disposição 12 salões e dois pátios internos repletos de obras culturais. Em um dos pátios, há um jardim em homenagem ao artista plástico e paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), que ganhou grande mostra no Paço Imperial em 2008.

Uma das obras inéditas é Agrupamento, de José Damasceno, feita com placas de MDF e grampos de serralheiro "garimpados" na feira de antiguidades da Praça XV, que ocorre sempre aos sábados em frente ao Paço. A obra foi criada especialmente para a exposição Constelações.

Além dos trabalhos expostos, até junho o Paço Imperial organizará seminários, oficinas e atividades educativas, valorizando a trajetória da instituição. Algumas das obras são fruto de parcerias com instituições como Museu Bispo do Rosário, Museu de Arte do Rio, Museu de Arte Moderna do Rio, Museu do Folclore, Museu de Imagens do Inconsciente, Instituto Moreira Salles e Sítio Roberto Burle Marx.

Relevância nacional

Ivair Reinaldim ressalta que o Paço Imperial tem relevância não somente local, mas também nacional. Ele cita o Salão Nacional de Artes Plásticas de 1986, quando o Paço expôs retrospectivas dos artistas Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988).

"Foram duas exposições que antecederam exposições internacionais desses dois artistas, que estão, certamente, entre os cinco artistas brasileiros mais reconhecidos na arte internacional", lembra. "Aqui foi a primeira vez que uma instituição conseguiu apresentar um conjunto de trabalhos desses artistas", orgulha-se.

O curador considera que o fato de o Paço ficar aberto em uma área de ampla circulação de público bastante variado representou um desafio para a curadoria, mas também garantia de diversidade. "Se um determinado público, de repente, não se atrai por todo tipo, por todas as obras, pelo menos vai ter algumas aqui que vão ter algum tipo de interesse, algum tipo de relação, de proximidade", prevê.

Os visitantes também poderão conhecer uma linha do tempo que conta a história do Paço desde sua construção, testemunhando acontecimentos marcantes da história do Brasil.

Serviço

O Paço Imperial fica na Praça XV, 48, Centro do Rio de Janeiro. A exposição Constelações – 40 anos do Paço Imperial é gratuita e fica em cartaz até 7 de junho, com funcionamento de terça-feira a domingo e aos feriados, das 12h às 18h.