O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta terça-feira (16) que a Polícia Federal (PF) realizasse buscas na residência do deputado federal Antônio Doido (MDB-PA), em Brasília. A ação faz parte da Operação Igapó, que investiga uma organização criminosa acusada de desviar R$ 48 milhões em espécie de agências bancárias no Pará.

Durante a diligência, realizada nas primeiras horas da manhã, os agentes da PF encontraram um celular na área externa do prédio onde o parlamentar mora, na região central da capital federal. Segundo testemunhas ouvidas pelos policiais, o aparelho foi jogado pela janela pouco antes da chegada da equipe.

Antônio Doido é investigado por desvio de verbas públicas através de empresas de fachada, especialmente no ramo da construção civil, que seriam controladas por sua esposa, Andrea Costa Dantas. O esquema teria como objetivo principal a lavagem de dinheiro proveniente de contratos públicos, com parte dos recursos sendo destinada a "fins eleitorais escusos" e aquisição de patrimônio, conforme relatório parcial da PF.

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As investigações tiveram como ponto de partida o material encontrado no telefone de Francisco Galhardo, policial militar aposentado que, segundo a PF, atuava sob as ordens do deputado. Galhardo foi preso em flagrante em outubro de 2024 dentro de uma agência bancária em Castanhal, no Pará, portando R$ 4,6 milhões em espécie.

O relatório da PF aponta que "os elementos indicam que Francisco Galhardo se utilizaria do aparato estatal, mais especificamente de um grupo de policiais militares, para realizar a movimentação de altas quantias em espécie sob a égide do deputado federal Antônio Leocádio dos Santos". Os investigadores também observaram que Antônio Doido utilizava a configuração de mensagens temporárias do WhatsApp, com apenas registros do dia 4 de outubro de 2024 armazenados no celular de Galhardo.

Parte do dinheiro apreendido seria destinada ao custeio do deslocamento de policiais militares que iriam "rodar o interior" do Pará, incluindo a compra de um roteador via satélite para garantir comunicação em áreas remotas.

Em parecer que endossou as diligências, a Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou que "além das movimentações financeiras suspeitas, os indícios apontam para uma possível instrumentalização da estrutura policial em benefício de candidaturas políticas".

A PF justificou novos pedidos de busca alegando que "centenas de milhões de reais em verbas públicas continuam sendo pagos às empresas vinculadas ao grupo investigado, com origem em recursos do erário cuja destinação não seguiu o interesse público".

Embora a PF tenha solicitado buscas no gabinete do deputado na Câmara dos Deputados, o ministro Dino negou o pedido, argumentando que as investigações focam em fatos ocorridos no Pará e não foi demonstrada a "utilidade específica" da busca no gabinete parlamentar.

Em nota oficial, a PF informou que "os investigados teriam o objetivo de desviar verbas públicas por meio de fraudes em processos de licitação, com posterior utilização dos valores desviados no pagamento de vantagens indevidas e ocultação de patrimônio".

Além do deputado, o secretário de Obras Públicas do Pará, Ruy Cabral, também foi alvo de buscas nesta terça-feira. Ao todo, o ministro Dino determinou a apreensão de aparelhos eletrônicos e a quebra do sigilo telefônico e telemático de 13 pessoas físicas e dez pessoas jurídicas, incluindo equipamentos da Secretaria de Obras Públicas do estado.

O ministro ordenou ainda o bloqueio de R$ 17 milhões em valores eventualmente encontrados em contas bancárias ligadas às empresas e pessoas investigadas. A Agência Brasil busca contato com o deputado Antônio Doido e seus assessores e está aberta a manifestações.