Nesta quarta-feira (25), em uma cerimônia emocionante na sede do Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro, objetos pessoais do pianista brasileiro Tenório Júnior foram finalmente entregues a seus familiares, quase meio século após seu desaparecimento e morte durante a ditadura militar argentina. Os dois colares que pertenceram ao músico foram recuperados pela Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) no ano passado, quando seus restos mortais foram identificados.
"Esses colares são a única memória física que nós temos dele, porque não existe muita possibilidade de conseguir qualquer resto moral. São uma coisa mais afetiva e íntima", explica Elisa Cerqueira, filha de Tenório. "Além disso, temos a certidão de óbito, emitida no fim do ano passado. Espero que, com ela, consigamos uma reparação e um reconhecimento oficial da responsabilidade dos Estados argentino e brasileiro nessa morte", completa.
A entrega foi realizada pelo antropólogo forense argentino Carlos Somigliana, membro da EAAF, que destacou o trabalho coletivo por trás da recuperação dos itens. "Muitas pessoas, do passado e do presente, tornaram isso possível. Há, em especial, um grupo de mulheres que trabalha na Unidade de Direitos Humanos na Argentina, que percebeu que estes colares pertenciam a uma pessoa desaparecida e fizeram tudo o que estava ao alcance para preservar os itens", explicou Carlos.
A cerimônia ocorreu em uma data simbólica: o mesmo dia em que se completam 50 anos do golpe militar na Argentina, ocorrido em 24 de março de 1976. Tenório Júnior desapareceu seis dias antes, em 18 de março, e a ditadura só terminaria em 1983. Organizações de direitos humanos estimam que o regime deixou pelo menos 30 mil desaparecidos.
Segundo o procurador Ivan Marx, representante do MPF na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, os trabalhos de busca por outros brasileiros desaparecidos durante a ditadura continuam, especialmente no contexto da Operação Condor. Esta foi uma aliança político-militar estabelecida em 1975 entre as ditaduras da América do Sul para coordenar a repressão a opositores além das fronteiras nacionais.
"Temos 14 brasileiros desaparecidos na Argentina e cinco no Chile. A ideia do nosso trabalho é conseguir coletar amostras sanguíneas dos familiares dos desaparecidos, para enviar para esses países e fazer a identificação", explica Ivan. "Queremos mostrar a verdade sobre esse período e fazer justiça sobre o passado, além de dar uma satisfação para as famílias que têm o direito de ter o seu luto", complementa.
Francisco Tenório Cerqueira Júnior iniciou sua carreira musical aos 15 anos, estudando acordeão e violão antes de se dedicar ao piano, instrumento que o tornaria famoso. Participou de diversos festivais e turnês no Brasil e exterior, trabalhando com grandes nomes da música brasileira. Em 1976, aos 33 anos, acompanhava os músicos Toquinho e Vinícius de Moraes em uma turnê pela América do Sul quando desapareceu em Buenos Aires.
Na madrugada de 18 de março, Tenório deixou o Hotel Normandie em Buenos Aires - possivelmente para comprar cigarro e remédio - e nunca mais foi visto. Segundo a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, o pianista foi considerado suspeito pelos militares argentinos por usar barba, cabelo grande e roupas "diferentes". Outra versão sugere que teria sido confundido com um líder dos Montoneros, movimento de guerrilha de esquerda radical.
Após passar por uma delegacia de polícia, Tenório foi transferido para a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), local onde cerca de 5 mil argentinos teriam sido levados durante a ditadura. Documentos apresentados pelo ex-torturador argentino Cláudio Vallejos revelaram que o capitão de corveta Jorge E. Acosta enviou um comunicado ao embaixador brasileiro sobre a morte do músico. O governo militar brasileiro, no entanto, nunca se manifestou sobre o caso nem procurou se comunicar com a família de Tenório.
A entrega dos colares representa não apenas um ato simbólico de reparação, mas também um capítulo importante no longo processo de busca por verdade e justiça para as vítimas das ditaduras do Cone Sul. Para a família de Tenório Júnior, os objetos são mais do que simples pertences: são fragmentos tangíveis de uma história interrompida brutalmente, que agora podem ajudar a compor o mosaico da memória de um artista cuja música foi silenciada, mas cuja história continua a ser contada.

