Entrei no Ilú Obá de Min em 2023, mas a verdade é que o tambor soava em mim muito antes. Era como um chamado antigo, uma memória familiar que eu precisava reencontrar. Quando finalmente cheguei, fui acolhida por aquele mar de mais de 400 mulheres. Mãos femininas a tocar para Xangô, o orixá da justiça.
Não era apenas um instrumento; era uma linguagem. E, como num download ancestral, tudo o que eu buscava começou a fazer sentido. Cheguei observadora, entrando devagar numa casa que precisava ser sentida. Meu instrumento? O xequerê. No entanto, agogôs, djembês, alfaias, dança, pernaltas, vozes — uma orquestra que só se comunica entre si, mas acolhe cada individualidade.
Ali, aprendi que cada passo no cortejo é uma estrada inteira, e que nenhuma de nós caminha sozinha. Após uma temporada intensa de ensaios, veio meu primeiro Carnaval: 2024, o ano em que feminizamos (licença poética para uma organização matriarcal) a família de Marielle Franco. Foi quando senti pela primeira vez o duplo movimento da Ilú (já tratado no feminino): o corpo avançava no asfalto do centro de São Paulo, mas era a alma que abria a passagem.
A ficha, no entanto, só caiu de vez em 2025, quando o bloco decidiu contar a história de Giriê Luíza Miranda — “Tambores Sempre Tambores”. Percebi que minha jornada ali não era aprender a tocar um instrumento. Era aprender a me escutar.

