A cultura paranaense perdeu nesta segunda-feira (5) um de seus maiores expoentes. Nilson Waldir Müller, artista plástico, ilustrador, escultor e cenógrafo, faleceu aos 85 anos, deixando um legado profundo nas artes visuais do Paraná. Curitibano de nascimento e coração, Müller foi o responsável por modernizar e popularizar o personagem Zequinha, ícone da cultura paranaense que marcou gerações.
Nascido em 1941, Nilson Müller iniciou sua trajetória artística ainda criança, copiando revistas em quadrinhos - paixão que o acompanharia por toda a vida. Aos 12 anos, conheceu Guido Viaro no Centro Juvenil de Artes Plásticas, experiência decisiva que o levou a cursar a Faculdade de Belas Artes. Lá, teve formação em desenho, pintura, xilogravura e modelagem com mestres como Osvaldo Lopes.
Ainda jovem, recebeu orientação de Thorsten Andersen, filho do renomado Alfredo Andersen, e teve trabalhos reconhecidos em importantes salões artísticos do Paraná, incluindo o Salão dos Novos da Biblioteca Pública do Paraná. Aos 16 anos, profissionalizou-se e tornou-se o primeiro cenógrafo de televisão do estado, abrindo caminhos para a linguagem visual no meio televisivo local.
Ao longo de sua extensa carreira, Müller atuou intensamente na ilustração publicitária e editorial, na pintura e na criação de personagens que se tornaram parte da identidade cultural paranaense. Sua trajetória foi reconhecida com prêmios no Salão Paranaense, no Salão dos Novos da Biblioteca Pública do Paraná, no Salão do Santa Mônica Clube de Campo e com o Prêmio Qualidade Brasil.
"Nilson Müller deixa um legado essencial para a história da arte, da ilustração e das narrativas gráficas no Paraná, com uma obra que segue inspirando artistas, leitores e públicos de diversas gerações", afirmou a secretária de Estado da Cultura, Luciana Casagrande Pereira. "Ele foi responsável por moldar grande parte da nossa identidade curitibana e paranaense através da sua iconografia e talento ímpares".
O resgate do Zequinha
Quem cresceu no Paraná no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 certamente se lembra do Zequinha: um senhor careca, risonho, de gravata-borboleta e maquiagem de palhaço, que nas figurinhas aparecia em diversas situações do cotidiano. Criado originalmente em 1928 para ajudar a vender balas produzidas pela fábrica dos irmãos Sobania, poloneses radicados em Curitiba, o personagem tornou-se um ícone cultural.
Inspirado em um palhaço paulista, o Zequinha foi desenhado inicialmente por Alberto Thiele e Paulo Carlos Rohrbach. Décadas depois, seu resgate foi feito pelo Governo do Estado do Paraná em uma campanha de incentivo ao recolhimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS).
Nilson Müller teve contato com o personagem ainda na infância. Mais tarde, em 1979, foi o próprio Müller quem ficou responsável por redesenhar e modernizar o Zequinha para o álbum de figurinhas Clube do Zequinha. Na época, era desenhista comercial e trabalhava para diversas agências de Curitiba. Quando o governo do Estado abriu a licitação, três agências o contrataram para fazer os estudos do personagem.
O álbum e as figurinhas podiam ser trocados por notas fiscais, tornando-se um marco da memória afetiva e cultural de gerações de paranaenses. Em 2021, durante o mês de aniversário de Curitiba, o Zequinha foi novamente relançado, com novas ilustrações assinadas por Nilson Müller. Nessa edição, o personagem apareceu retratado em 200 atividades diferentes, além de oito figurinhas especiais.
Relação com os equipamentos culturais
A relação de Nilson Müller com os equipamentos culturais do Paraná atravessa toda a sua trajetória. Além de sua formação no Centro Juvenil de Artes Plásticas e Museu Alfredo Andersen, alguns dos cenários em que o Zequinha aparece nas figurinhas são marcos culturais, como o Museu Oscar Niemeyer (MON), o Museu Paranaense e o próprio Museu Casa Alfredo Andersen.
Desenhar o Zequinha no Museu Casa Alfredo Andersen tinha, para Müller, um significado especial. "Eu morava a uma quadra da Casa Alfredo Andersen e fazia entregas para a mercearia do meu pai. Um dia passei em frente à Casa, vi um quadro a óleo e fiquei louco. Depois fiquei sabendo que lá tinha um grupo de pessoas que se reunia para pintar", recordou Müller em entrevista para a Secretaria de Estado da Cultura, em 2021.
"O Thorsten, filho de Alfredo Andersen, via que nós éramos dedicados e dava a máxima atenção, ensinava a observar, a fazer os traços com segurança. Isso marcou a gente. Por isso comecei a ser profissional desde cedo", completou o artista.
O diretor do Complexo Alfredo Andersen, Luiz Gustavo Vidal, registrou: "Zequinha ultrapassa o campo da ilustração e se torna um símbolo de identidade, de memória afetiva e também de um destaque ao cotidiano. Manifestamos nossa solidariedade, Nilson sempre estará em nossos corações, e o Zequinha, mais do que nunca, sempre estará presente em nossas memórias".
Nilson Müller deixa uma obra que transcende o tempo e continua a inspirar novas gerações de artistas e admiradores da cultura paranaense. Seu Zequinha permanece como testemunho vivo do talento e da sensibilidade de um artista que soube capturar a essência do Paraná em traços e cores.

