A indústria paulista está acelerando sua transição energética com projetos concretos que substituem combustíveis tradicionais por fontes renováveis. Um exemplo emblemático dessa mudança está em operação no complexo industrial da Natura Cosméticos, em Cajamar, na Grande São Paulo. A unidade, que é a maior da empresa na América Latina, implementou uma estrutura completa para uso de biometano, recebendo em julho de 2025 a Licença de Operação da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
A nova instalação funciona 24 horas por dia e inclui uma Unidade de Manutenção e Vazão de Pressão com capacidade de 1.200 m³ por hora, área de estocagem com 16 cilindros de biometano (700 m³) e estacionamento de semirreboques industriais com três cilindros de 6.500 m³ cada. Essa infraestrutura alimenta uma das três caldeiras da planta, que passou a operar com 98% de biometano e apenas 2% de GLP, substituindo o modelo anterior baseado majoritariamente em etanol.
O consumo diário é de aproximadamente 600 m³ de biometano, produzindo até 3.250 kg/h de vapor para os processos industriais. Com essa mudança, o biocombustível já representa cerca de 45% de toda a energia utilizada nos processos produtivos da unidade de Cajamar. Além da aplicação industrial, o biometano também abastece 28 caminhões que realizam o transporte entre a fábrica e centros de distribuição da região metropolitana de São Paulo.
As projeções para 2026 são ainda mais ambiciosas: consumo anual de 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano, volume equivalente ao uso energético de aproximadamente 30 mil residências. A substituição da matriz energética deve reduzir até 1,3 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂) por ano — impacto comparável à retirada diária de cerca de 280 veículos de passeio das ruas.
O biometano utilizado na operação é produzido a partir da purificação do biogás gerado em aterros sanitários, transformando resíduos em fonte energética renovável. Parte dos resíduos destinados à unidade de tratamento retorna à empresa como combustível, configurando um modelo de economia circular que fecha o ciclo dos materiais.
Segundo Liv Nakashima, diretora de Gestão Corporativa e Sustentabilidade da Cetesb, "a adoção de energia limpa em processos industriais de grande escala representa um avanço concreto na matriz energética paulista, contribuindo também, neste caso, para o avanço da economia circular. A atuação da Cetesb busca garantir que essas tecnologias avancem no estado com segurança operacional e monitoramento contínuo".
A diretora destaca ainda o papel estratégico do licenciamento ambiental: "O licenciamento ambiental funciona como instrumento que orienta a transição energética do setor produtivo, assegurando que a redução de emissões ocorra com base técnica e responsabilidade ambiental".
Além da etapa inicial de licenciamento, o empreendimento permanece sob acompanhamento técnico da Cetesb, com envio periódico de relatórios de monitoramento de diversos parâmetros, incluindo emissões atmosféricas, para análise das áreas especializadas da companhia ambiental.
A experiência de Cajamar reflete uma tendência crescente no setor industrial paulista de adoção de combustíveis renováveis em escala produtiva e logística. Essas iniciativas estão alinhadas tanto às metas corporativas de neutralidade de carbono quanto à agenda mais ampla de descarbonização da economia brasileira, demonstrando que a transição energética pode avançar de forma prática e mensurável dentro das operações industriais.

