A costureira e ativista Márcia Justino Barreto Bispo, de 56 anos, estava entre as mulheres que, animadas, aguardavam para pegar um ônibus na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, na manhã de segunda-feira (24). Ela e muitas outras encarariam 22 horas de estrada para participar, na terça-feira (25), da Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília. Segundo as organizadoras do evento, cerca de 30 mil mulheres do estado do Rio devem integrar a mobilização na capital do país, com participantes de várias regiões do Brasil esperadas para marchar em prol de direitos e igualdade.

Márcia expressou seu sentimento sobre a importância da luta: "O meu sentimento de mulher preta é de que eu preciso dessa luta. Precisamos ser vistas e lembradas para ter mais oportunidades de trabalho, com mais mulheres pretas na política, nos estudos. A mulher preta é o útero do país. Parimos essa população, junto com as mulheres indígenas e as europeias. Precisamos dessa reparação histórica". Suas palavras refletem um anseio comum entre as participantes por reconhecimento e mudanças estruturais que combatam as desigualdades raciais e de gênero.

A marcha ganha relevância em um contexto onde o racismo persiste como um problema grave no Brasil. Notícias relacionadas destacam que o ambiente de trabalho concentra 30% dos casos de racismo no país, jovens identificam o racismo como um marcador central das desigualdades no Distrito Federal, e a Fundação Cultural Palmares, embora aponte avanços, alerta para a persistência do racismo sistêmico. Esses dados reforçam a urgência das reivindicações levadas às ruas.

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Irinéia Olinda de Jesus, assistente social de 72 anos e moradora de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, que integra a Secretaria de Combate ao Racismo do PT, enfatizou o caráter histórico da mobilização. "Vimos as nossas ancestrais que passaram por todo um processo de escravização e de separação da família. É pertinente a gente dar continuidade a esses passos que vêm de longe. Ainda falta muito para que a população preta consiga alcançar a igualdade nesse país", afirmou. Sua fala ressalta como a marcha não é apenas um ato do presente, mas uma continuidade da resistência de gerações passadas, buscando superar as condições subalternas impostas às mulheres negras.

Já a costureira Íris de Oliveira Thomaz, de 64 anos, vê sua participação como uma forma de lutar por um futuro melhor para as próximas gerações. "Estou representando também meus netos para que eles tenham condições melhores no nosso país para acabar com esse racismo [em relação] a nossa cor", declarou. Sua perspectiva ilustra o desejo de que o esforço coletivo possa romper ciclos de discriminação e abrir caminhos para uma sociedade mais justa.

A Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília simboliza, portanto, um momento de união e resistência, onde vozes como as de Márcia, Irinéia e Íris ecoam demandas por políticas públicas, oportunidades equitativas e o fim do racismo estrutural. Enquanto milhares percorrem longas distâncias, a esperança é que suas mobilizações inspirem transformações profundas, honrando o legado das ancestrais e pavimentando um amanhã com mais dignidade para todas as mulheres negras no Brasil.