No sudeste do Pará, um movimento silencioso mas poderoso vem transformando realidades. Em Paraupebas, município cujo nome tupi significa "rio de águas rasas", mulheres estão escrevendo uma nova história para a região, tradicionalmente marcada pela mineração. Seja com a produção de mel, cerâmica ou biojoias feitas com sementes, essas empreendedoras mostram que é possível liderar negócios aliando realização pessoal, valorização cultural, preservação da floresta e geração de renda.

Vizinhas da maior mina de ferro a céu aberto do mundo e da Floresta Nacional de Carajás, essas mulheres encontraram na natureza os materiais para suas produções e, com isso, conquistaram independência financeira e protagonismo na comunidade. Suas histórias se entrelaçam com dados nacionais que mostram um crescimento significativo do empreendedorismo feminino no Brasil.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), apenas no ano passado, mais de 2 milhões de pequenos negócios abertos no país foram liderados por mulheres. Quatro em cada dez pequenas empresas criadas em 2025 tiveram mulheres à frente, superando em mais de 320 mil o número do ano anterior. A gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará, Renata Batista, destaca que o número de mulheres donas de negócios passou de 8,2 milhões, em 2015, para 10,4 milhões, em 2025 - um crescimento de 27% em dez anos, acima do avanço observado entre os homens.

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"Isso acontece por uma combinação de fatores: maior escolarização feminina, a busca por autonomia financeira, a necessidade de geração de renda e a ampliação do acesso à formalização, especialmente via MEI [microempreendedor individual]. Ao mesmo tempo, o empreendedorismo tem sido uma porta de entrada para as mulheres transformarem o conhecimento, o talento e o vínculo com o território e o negócio", explica Renata.

Das colmeias à liderança

Uma das iniciativas mais emblemáticas é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA), que existe há cerca de dez anos. A associação trabalha tanto com mel proveniente da apicultura tradicional quanto da meliponicultura, que consiste na criação de abelhas sem ferrão resgatadas de zonas de supressão. Atualmente, a AFMA é composta por 23 famílias, reunindo mulheres e homens, mas são as mulheres que administram o negócio.

"Os homens vão para o apiário, mas quem administra são as mulheres", conta Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da associação. "A gente vai organizando todo mundo e fazendo o que é melhor para produzir e para aumentar essa produção, assim como as abelhas fazem".

Ana Alice, que voltou a estudar aos 51 anos, relata uma transformação profunda na vida das participantes: "A gente só sabia passar e cozinhar. Mas, quando colocaram essa ideia nas nossas cabeças, de que a gente podia fazer outras coisas fora de casa, abraçamos. Isso foi nos transformando. Até saímos para estudar".

Biojoias: tesouros da floresta

Outra iniciativa que vem ganhando destaque é a Associação Preciosidades da Amazônia, que transforma mais de 100 tipos de sementes em biojoias que misturam arte e sustentabilidade. Luciene Padilha, secretária da associação e futura presidente da Cooperativa de Trabalho Artesanal da Amazônia, conta que o projeto impacta não só a vida financeira, mas também a parte social, econômica e emocional das 12 mulheres participantes.

"Quando fizemos o curso, éramos mulheres em situação de vulnerabilidade, mulheres que não saíam de casa porque tinham medo. Seus provedores diziam: 'você não sabe, você não pode'. Hoje elas já se posicionam, já se sentem mais fortalecidas e trabalham com empreendedorismo feminino", comemora Luciene.

Sandra Brasil, tesoureira do grupo, explica a filosofia por trás do trabalho: "Nós trabalhamos com materiais vegetais e tudo o que a natureza nos permite usar. Nós estamos com um tesouro na mão. Não é só ouro e prata que são tesouros. Nós aprendemos a reconhecer a natureza como o verdadeiro tesouro da humanidade".

Mulheres de barro e memória ancestral

Já o grupo Mulheres de Barro, formado por ceramistas de Parauapebas, surgiu durante a implantação do projeto Salobo, maior projeto de exploração de minério de cobre do país. Durante as obras, foram encontrados artefatos arqueológicos datados de 6 mil anos atrás, e foi a partir dos trabalhos de prospecção e salvamento arqueológico que o grupo se formou.

Sandra dos Santos Silva, presidente do Centro Mulheres de Barro, explica que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incluiu no processo de licenciamento das pesquisas arqueológicas uma obrigação de fazer educação patrimonial para informar a comunidade do entorno sobre os resultados. "E foi aí que eu digo que o universo conspirou a nosso favor, porque a gente estava buscando isso: participamos dessa formação durante seis anos. A gente não sabia fazer cerâmica, aprendemos do zero", conta.

O grupo, formado por 18 mulheres e quatro homens, não só fabrica peças inspiradas nos vestígios arqueológicos da região como também ministra cursos e oficinas. Para garantir a sustentabilidade, elas deixaram de coletar argila diretamente da natureza e passaram a utilizar sobras de construções da cidade.

Desafios e perspectivas

Apesar do crescimento do empreendedorismo feminino, as mulheres ainda não representam nem metade dos novos pequenos empreendimentos abertos no país. No Pará, apenas 37,6% das pequenas empresas criadas em 2025 eram lideradas por mulheres. Renata Batista, do Sebrae, destaca que as empreendedoras enfrentam desafios adicionais: "Logo que elas abrem os negócios em proporções semelhantes às dos homens, mesmo elas sendo em média mais escolarizadas, esses empreendimentos tendem a faturar menos".

Além disso, as mulheres tendem a ter mais dificuldade de acesso ao crédito e enfrentam sobrecarga no trabalho, acumulando afazeres domésticos e cuidados com a família. Para fortalecer esses projetos, o governo federal apresentou recentemente o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), com um eixo voltado para projetos relacionados à sociobioeconomia e aos ativos ambientais.

Patricia Daros, diretora de soluções baseadas na natureza da mineradora Vale, destaca que 30% dos 50 projetos de bioeconomia apoiados recentemente pela empresa são liderados por mulheres. "A gente começou a perceber, desde quando a gente começou esse trabalho [de fomento], uma mudança do ponto de vista desse perfil de quem está à frente desses negócios, e as mulheres começaram, de fato, a aparecer um pouco mais ultimamente, principalmente em negócios relacionados à bioeconomia", afirma.

Impacto que vai além da renda

Para Renata Batista, do Sebrae, projetos como esses são estratégicos porque mostram, na prática, que é possível gerar renda com a floresta preservada, agregando valor à biodiversidade, ao conhecimento local e à cultura brasileira. "No caso das biojoias, ainda há um componente muito forte de identidade e diferenciação. O Sebrae aponta que esse mercado vem ganhando espaço porque une materiais naturais, processo artesanal e valorização de histórias, crenças e tradições do país".

Maria do Socorro Assunção Teixeira, 62 anos, uma das fundadoras do Mulheres de Barro, resume o sentimento de muitas dessas empreendedoras: "Eu nunca tinha mexido com barro. Mas agora me sinto muito feliz. Agora eu me vejo como multiplicadora de conhecimento. Nós passamos [esse conhecimento] para outras pessoas".

Em Paraupebas, essas mulheres estão provando que é possível construir uma economia mais enraizada no território, com mais identidade, mais valor agregado e mais capacidade de distribuir renda localmente - tudo isso enquanto preservam a floresta e fortalecem as tradições da Amazônia.