Uma rotina de exploração em longas jornadas de trabalho. Essa ideia representa melhor a realidade de categorias como motoristas de aplicativo no Brasil do que o conceito de que são empreendedores, patrões de si mesmos. Essa é uma das análises do cientista político Leonardo Sakamoto no livro "O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho" (Editora Alameda, 243 páginas), lançado recentemente.

Em parceria com o jornalista Carlos Juliano Barros, Sakamoto avalia que esses trabalhadores acionados por tecnologia foram enganados pela narrativa do empreendedorismo. "Eles caíram no conto do vigário de que são empreendedores", afirmou o autor em entrevista à Agência Brasil. A obra foi apresentada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e terá sessão de autógrafos no Rio de Janeiro em dezembro.

O pesquisador identifica como principal problema o fato de as plataformas ficarem com boa parte dos recursos e pagarem menos do que os motoristas e entregadores reivindicam. Além disso, esses trabalhadores sem direitos trabalhistas não recolhem tributos para aposentadoria ou proteção em caso de infortúnios.

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Sakamoto critica a narrativa que culpa a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) pelos problemas do mercado de trabalho. "A culpa do salário baixo, na verdade, é do patrão. A culpa de trabalhar muito, na escala de seis para um, é do Congresso Nacional", opina o autor, destacando que houve um ataque sistemático aos direitos trabalhistas.

O livro traz reflexões atualizadas baseadas em textos produzidos nos últimos quatro anos para os sites Repórter Brasil e UOL, abordando a exploração no campo profissional. Sakamoto avalia que há exploração de diferentes categorias e desrespeito às leis em vigor, com uma rede de preocupações sobre o tema.

Entre os alertas levantados estão os possíveis danos causados pela inteligência artificial e as práticas de precarização, como as contratações de pessoas físicas como pessoas jurídicas (as "pejotas") e os freelancers fixos (os "frilas") que têm deveres mas nenhum direito.

O pesquisador enumera que a fórmula de desenvolvimento de grandes conglomerados não aboliu o trabalho escravizado e o uso de crianças em espaços laborais. "A gente ainda não foi capaz de erradicar a escravidão contemporânea no Brasil. Temos um pé apontado para a frente, um apontado para trás e os dois presos na lama", lamenta.

As formas arcaicas de superexploração do trabalho sobreviveram às mudanças sociais, convivendo com as altas tecnologias atuais. "A tecnologia não representa necessariamente a melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores", afirma Sakamoto, destacando que a inovação tecnológica pode tanto precarizar quanto mobilizar os trabalhadores.

O autor defende que são necessárias reivindicações e mobilizações por parte dos trabalhadores para enfrentar o cenário de exploração. No caso dos motoristas de aplicativo e entregadores, a luta atual é pela garantia de um preço mínimo da corrida e condições de trabalho adequadas.

Os trabalhadores estariam se mobilizando por meio das redes sociais, especialmente após o abalo sofrido pelos sindicatos com a reforma trabalhista de 2017. Sakamoto contesta o discurso empresarial sobre excesso de direitos: "Todo dia aparece um empresário falando que o Brasil tem direitos demais. Isso é uma bobagem. Outros países também têm uma série de proteções aos trabalhadores".

O pesquisador analisa que o país vive diferentes forças em relação ao campo profissional. Enquanto o Estado Brasileiro tem estrutura de proteção na Justiça do Trabalho e no Ministério Público do Trabalho (MPT), há um pensamento escravagista nas três esferas de poder. Ele cita como exemplo a PEC das Domésticas, que garantiu direitos importantes a um grupo formado majoritariamente por mulheres negras, mas foi criticada pela elite financeira.

Para Sakamoto, este é um momento histórico para que a sociedade possa garantir dignidade no ambiente de trabalho, combatendo tanto as formas modernas de precarização quanto as violações trabalhistas tradicionais que persistem no Brasil contemporâneo.