O mundo do hip-hop está de luto. Afrika Bambaataa, nome verdadeiro Lance Taylor, faleceu na madrugada desta quinta-feira (9), aos 68 anos, em um hospital na Pensilvânia, nos Estados Unidos. A causa da morte foram complicações de um câncer, conforme divulgado pelo site de entretenimento TMZ. Considerado um dos fundadores do movimento hip-hop, Bambaataa deixa um legado que atravessa décadas e territórios, conectando a cultura negra periférica em escala global.

A notícia da morte do rapper, DJ e produtor norte-americano provocou forte comoção entre artistas e agentes culturais, especialmente no Brasil, onde sua influência é profunda e reconhecida. Em publicação oficial no perfil @afrika_bambaataa_official, a equipe do artista destacou sua dimensão humana e política: "O que ele construiu — a Universal Zulu Nation, a cultura, o movimento — nunca foi apenas música. Foi uma mensagem de paz, amor, união e diversão. Seu espírito vive em cada batida, em cada b-boy, em cada grafite, em cada DJ que toca pela cultura. O Hip-Hop é hoje uma linguagem global por causa dele".

A organização Universal Zulu Nation, criada por Bambaataa em 1973, foi uma das bases estruturantes do hip-hop, difundindo valores como paz, união e respeito entre jovens das periferias. No Brasil, essa influência se manifestou de forma marcante. O DJ Marlboro, por exemplo, já afirmou que "Planet Rock", um dos maiores sucessos de Bambaataa, lançado em 1982, foi uma das principais referências para o surgimento do funk carioca. O próprio artista reconhecia essa conexão. Em entrevista ao jornal O Globo, em 2010, ele afirmou ver sua música refletida nos ritmos brasileiros, especialmente pela proximidade com matrizes africanas.

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Bambaataa esteve diversas vezes no Brasil, incluindo uma apresentação no Rock in Rio em 2011, ao lado de Paula Lima e do rapper português Boss AC, e uma participação no programa Esquenta!, da TV Globo, em 2013, com Preta Gil. Essas visitas reforçaram os laços entre a cultura hip-hop global e suas expressões locais.

Para o rapper GOG, um dos nomes centrais do hip-hop nacional, a morte de Bambaataa representa uma perda histórica: "É uma perda irreparável no nosso front. Bambaataa foi um mestre de consciência dentro do movimento. Ele transformou a rua em escola e traz a cultura como ferramenta de paz. Então ele deixa um legado que todos nós do hip hop temos e devemos preservar e honrar".

O jornalista e ativista Eduardo Nascimento também ressaltou o papel transformador do artista. "Afrika Bambaataa: Presente Do Cais do Valongo à pacificação das gangues no Bronx. Da criação da Universal Zulu Nation à fundação do movimento Hip Hop. Mais que um nome, Bambaataa representa liderança, consciência e transformação. Um símbolo da virada: da rua para a cultura, do conflito para a construção coletiva". Nascimento relembra ainda encontros com o artista no Brasil, incluindo participação em debates ao lado de Mano Brown, destacando a dimensão política e educativa.

Para o jornalista e antropólogo Spensy Pimentel, autor do Livro Vermelho do Hip Hop, a importância de Bambaataa ultrapassa a música e se insere em um campo mais amplo de pensamento e organização cultural: "A influência de Afrika Bambaataa no Hip Hop global é algo muito interessante porque não é somente artística, é também filosófica e política. Ele não somente foi um dos principais DJs que iniciaram o Hip Hop por volta de 1973, como foi também um dos primeiros artistas a criar hits na indústria fonográfica, como Planet Rock, de 1982. Artisticamente, ele influenciou não somente aquilo que nós chamamos de Hip Hop no Brasil, mas também todo o movimento que nós chamamos de funk carioca, ou simplesmente funk".

Spensy Pimentel ressalta ainda que o artista criou a Universal Zulu Nation, em 1973, que foi a primeira organização do Hip Hop. Influenciado por organizações negras como o Black Panthers, ele mostrou que o movimento podia ser muito mais do que apenas música e festa. "A transformação do Hip Hop em um movimento cultural global foi muito impulsionada pela ação dele. Nos últimos 10 anos, contudo, vieram à tona diversas acusações de abuso sexual contra crianças, que mancharam esse legado, lamentavelmente".

A morte de Afrika Bambaataa marca o fim de uma era, mas seu legado continua vivo nas batidas, nas rimas e na cultura que ajudou a construir. No Brasil, sua influência permanece como uma força motriz para artistas e comunidades que veem no hip-hop uma ferramenta de expressão e transformação social.