Casos recentes de feminicídio, estupro de adolescentes e violência doméstica reacenderam com força o debate sobre a misoginia no Brasil. O comportamento, que significa ódio contra as mulheres e a defesa da manutenção de privilégios históricos para os homens, pode se tornar crime após a aprovação de um projeto de lei pelo Senado Federal nesta terça-feira (24).

A misoginia é entendida por especialistas como um fenômeno estrutural – que permeia relações sociais, culturais, econômicas e políticas – e que tem encontrado terreno fértil em espaços online. Conteúdos misóginos vêm ganhando força em fóruns de internet e redes sociais, criando ecossistemas digitais que, segundo pesquisadores, funcionam como combustível para ações concretas de violência.

Um dos casos que ilustram essa conexão foi a morte da policial Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça em seu apartamento em São Paulo. As investigações apontam que o marido dela, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, acusado do crime, usava em conversas termos que circulam com frequência em grupos misóginos da internet, como "macho alfa" e "mulher beta". Essas expressões remetem à ideia de superioridade masculina e submissão feminina.

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Outro episódio recente que chamou atenção foi a viralização de conteúdos nas redes sociais mostrando homens simulando agressões físicas – socos, chutes e facadas – contra mulheres como resposta a uma rejeição. Essas manifestações explicitam como discursos de ódio podem normalizar e incentivar a violência.

No âmbito legislativo, o Senado aprovou por 67 votos a favor e nenhum contra o projeto que criminaliza a misoginia, inserindo o delito entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo. O texto define a misoginia como "a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres" e prevê penas de dois a cinco anos de prisão.

A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), relatora do projeto, destacou durante a votação que países como França, Argentina e Reino Unido já possuem legislações específicas para combater a misoginia. A matéria agora segue para análise da Câmara dos Deputados.

A oposição no Senado tentou incluir alterações que permitiriam isentar de punição autores de crimes de misoginia em casos de "liberdade de expressão" ou por motivos religiosos, mas essas emendas foram rejeitadas pelo plenário.

Enquanto o debate avança no Congresso, pesquisadores alertam para a expansão da chamada "machosfera" na internet – um conjunto de fóruns, canais de vídeo, grupos de mensagens e perfis em redes sociais voltados para a defesa de um padrão conservador de masculinidade e de oposição aos direitos femininos. Estudos do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mapearam mais de 130 mil canais misóginos no YouTube e identificaram que temas aparentemente inofensivos, como "sedução e relacionamentos", "questões jurídicas" e "vencer a timidez", muitas vezes servem como pontes para conteúdo de ódio.

Os números da violência seguem alarmantes. De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registra atualmente quatro feminicídios por dia, totalizando 1.547 casos em 2025. Desde 2015, essa estatística vem aumentando anualmente, reforçando a urgência de medidas efetivas de prevenção e combate.

Para denunciar casos de violência contra a mulher, a população pode acionar a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. O atendimento também está disponível via WhatsApp no número (61) 9610-0180 e pelo e-mail central180@mulheres.gov.br. Denúncias podem ser feitas ainda em delegacias especializadas de atendimento à mulher (Deam), em delegacias comuns e nas Casas da Mulher Brasileira. Outros canais incluem o Disque 100, para violações de direitos humanos, e o 190, da Polícia Militar.