O Ministério da Saúde inaugurou nesta terça-feira (7) o Memorial da Pandemia, no Rio de Janeiro, um espaço dedicado a homenagear as mais de 700 mil vítimas da covid-19 no Brasil. A cerimônia marcou também a reabertura do Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS), que passou por quase quatro anos de obras de recuperação com investimento de cerca de R$ 15 milhões.
Duas instalações artísticas se destacam no memorial. A primeira reúne pilastras com letreiros digitais que exibem nomes de vítimas da doença, acompanhados de informações sobre idade e cidade de origem. A segunda, estruturada em alumínio naval, forma quatro silhuetas humanas de mãos dadas, simbolizando a união da sociedade no enfrentamento da pandemia.
Paralelamente ao memorial físico, foi lançado o Memorial Digital da Pandemia, um portal desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). O acervo digital dará origem a uma exposição itinerante que percorrerá seis capitais brasileiras entre maio de 2024 e janeiro de 2027, começando por Brasília e encerrando no Rio de Janeiro.
Durante a cerimônia, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, fez um discurso contundente sobre as lições da pandemia. "O Brasil viveu uma crise sanitária e uma crise de responsabilidade pública durante a pandemia. O negacionismo custou vidas. A ciência já demonstrou que grande parte das mortes poderia ter sido evitada se tivéssemos seguido as evidências, incentivado a vacinação e protegido a população", afirmou o ministro.
Padilha acrescentou que "preservar essa memória é essencial para que o Brasil nunca mais repita esse erro e para que a defesa da ciência e da vida seja sempre um princípio inegociável na condução da saúde pública".
Está prevista para junho, no CCMS, a exposição "Vida Reinventada", com curadoria da ex-ministra da Saúde Nísia Trindade. A proposta é apresentar uma leitura das respostas da sociedade à pandemia através da articulação entre memória, ciência, arte e justiça.
Outro lançamento importante do evento foi o Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), desenvolvido em parceria com a Fiocruz. O documento substitui normativas anteriores e servirá como referência única no SUS para identificar, diagnosticar e tratar sequelas persistentes da doença.
O guia detalha manifestações clínicas que podem surgir a partir de quatro semanas após a infecção, mesmo em casos leves ou assintomáticos, abordando complicações em sistemas como cardiovascular, respiratório, neurológico e saúde mental. Também apresenta protocolos diagnósticos, recomendações terapêuticas e fluxos assistenciais na Rede de Atenção à Saúde, com atenção especial a populações vulneráveis.
As iniciativas foram celebradas por organizações da sociedade civil, incluindo a Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico). Paola Falceta, assistente social e uma das fundadoras da associação, perdeu a mãe de 81 anos no início da pandemia. "Tanto o memorial quanto o guia de manejo da covid-19 são demandas da nossa associação em conjunto com outras entidades. Elas começam judicialmente no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e são levadas adiante no diálogo com o governo atual", explicou Paola.
A ativista completou: "Algumas pessoas afetadas pela doença não querem mais ouvir falar dela, porque é algo muito doído. Porém, a gente não pode deixar de fazer essa reflexão. É uma questão de memória, de justiça, de verdade e de luta para que não se repita mais a condução irresponsável do Estado dessa emergência de saúde pública".
Os lançamentos ocorrem em um momento em que a covid-19 ainda segue ativa no país. Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que a doença matou 29 pessoas em janeiro deste ano, lembrando que a pandemia, embora em fase diferente, não está completamente superada.

