Em 2019, um experimento inovador levou "minicérebros" para a Estação Espacial Internacional, marcando um avanço na busca por tratamentos para condições neurológicas e doenças degenerativas. Liderado pelo pesquisador brasileiro Alysson Muotri, professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, em parceria com a Nasa, o projeto utilizou organoides – conjuntos esféricos de células neurais que imitam o funcionamento do cérebro humano – para estudar os efeitos do envelhecimento acelerado em microgravidade.

Após 30 dias no espaço, os minicérebros apresentaram sinais de envelhecimento rápido, o que permitiu ao grupo de Muotri identificar mudanças cruciais, como uma resposta autoimune a trechos de DNA retroviral herdados da evolução humana. Essa descoberta abriu portas para possíveis tratamentos, incluindo o uso de medicamentos antirretrovirais, tradicionalmente empregados contra o HIV, para combater doenças como o Alzheimer.

Muotri, que também é diretor do Sanford Integrated Space Stem Cell Orbital Research Center (ISSCOR), não parou por aí. Ele se candidatou para uma missão espacial pessoal, com o objetivo de testar extratos de plantas da Amazônia com propriedades neuroativas diretamente nos minicérebros em órbita. A ideia era aproveitar a Senescência Neural Induzida pelo Espaço (SINS) – um fenômeno que acelera o envelhecimento neural em anos, algo difícil de replicar na Terra – para avaliar a eficácia dessas moléculas no tratamento de condições como o Alzheimer.

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Em entrevista à Agência Fapesp, Muotri explicou que a pesquisa envolve uma colaboração com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e tribos originárias, como os Huni Kuins, para isolar compostos de plantas com potencial medicinal. "Buscamos uma curadoria de plantas que possam ter um benefício medicinal clínico", afirmou. Os testes seriam realizados em tecidos cerebrais cultivados a partir de células-tronco de pacientes com Alzheimer, enviados à Estação Espacial Internacional para envelhecimento acelerado.

No entanto, os preparativos para a missão foram interrompidos por cortes massivos de recursos do governo norte-americano, que afetaram a Nasa e outras agências de fomento à ciência. Muotri destacou que a demora na nomeação de um novo presidente da Nasa atrasou o projeto, mas ele mantém o otimismo. "Só agora que temos um novo CEO. Então vamos ter que aguardar um pouco, ter um pouco mais de paciência até que a situação seja resolvida", disse.

Diante dos obstáculos, o pesquisador busca alternativas com financiamento privado, incluindo parcerias com empresas como SpaceX, Axiom Space e Vast, além de apoio da indústria farmacêutica e filantropia. Ele argumenta que um tratamento eficaz para o Alzheimer traria economia significativa para países como Estados Unidos e Brasil, justificando altos investimentos. Outro aspecto importante é o compromisso com a conservação da Amazônia e dos povos originários: eventuais royalties de fármacos desenvolvidos a partir das plantas seriam revertidos para essas comunidades, garantindo a divisão justa da propriedade intelectual.

Além do foco no Alzheimer, os estudos de Muotri já geraram descobertas promissoras para outras condições. Por exemplo, a exploração espacial revelou uma nova via molecular relacionada à síndrome de Rett, que pode ser bloqueada por antirretrovirais. "Ora, antirretrovirais, principalmente os usados para o HIV, são amplamente utilizados, são drogas baratas, e que podem ter um efeito benéfico para essa síndrome", explicou. Um ensaio clínico está em andamento no Brasil para testar essa abordagem.

Em 2022, o grupo publicou um trabalho sobre uma possível terapia genética para a síndrome de Pitt-Hopkins, uma condição neurológica severa. Muotri revelou que, em colaboração com o doutor Fábio Papes da Unicamp, obteve aprovação da FDA para iniciar a fase 1 de testes nos Estados Unidos, focada na avaliação de toxicidade. "Passando a fase 1, entramos na fase 2, em que se avalia a eficácia", afirmou, com previsão de recrutar pacientes a partir de 2026.

Essas iniciativas destacam como a pesquisa espacial pode impulsionar a medicina terrestre, oferecendo esperança para milhões afetados por doenças neurológicas. Apesar dos desafios financeiros, a determinação de Muotri e sua equipe em buscar soluções inovadoras continua a inspirar a comunidade científica e a sociedade.