O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta sexta-feira (20), a criação de uma reserva estratégica de combustíveis no Brasil, medida que classificou como fundamental para proteger o país da instabilidade internacional e da especulação de preços. A declaração foi feita durante evento de anúncio de investimentos da Petrobras em Minas Gerais, onde o mandatário criticou a escalada de conflitos no Oriente Médio e destacou a vulnerabilidade brasileira diante de crises globais.

"Eu falei para a Magda [Chambriard, presidente da Petrobras]: isso não é uma coisa rápida, é uma coisa que leva tempo, mas é uma coisa estratégica que a Petrobras e o governo têm que pensar", afirmou Lula, referindo-se à necessidade de construir estoques reguladores. O presidente alertou para os riscos de uma interrupção no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passa parcela significativa do petróleo mundial: "Nós precisamos, ao longo do tempo, construir um estoque regulador, para a gente não ser vítima do que está acontecendo hoje. E se essa guerra durar 30 dias, durar 40 dias? E se o Irã não deixar sair nenhum barril de petróleo do Estreito de Ormuz?"

Atualmente, o Brasil não possui reservas estratégicas de petróleo, contando apenas com estoques operacionais para evitar desabastecimento nos postos entre a chegada de navios importados ou o processamento em refinarias. Essa situação preocupa, já que o país ainda depende de importações para cerca de 30% do diesel consumido, aumentando a vulnerabilidade em momentos de crise global. Para Lula, mesmo com custo elevado, as reservas garantiriam soberania e proteção contra especulação, similar às reservas internacionais em moeda estrangeira, que totalizam US$ 364,4 bilhões. "Graças a essa reserva que nós começamos a fazer a 2005, até hoje o Brasil enfrenta todas as crises mundiais sem se abalar. Nós temos muita verdinha [dólar] [...], e eu não posso mexer na reserva porque ela garante a soberania desse país", argumentou.

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O presidente citou exemplos de nações que mantêm estoques, como Estados Unidos, China e Rússia, e afirmou que vai trabalhar estrategicamente em um plano de produção e estoque, incluindo investimentos na melhoria ou construção de novas refinarias. Durante o evento, a Petrobras anunciou investimentos de R$ 9 bilhões na Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, Minas Gerais, que estava operando com apenas 60% da capacidade no governo anterior e agora processa 170 mil barris de petróleo por dia, com 98% de capacidade. Com R$ 3,8 bilhões, a previsão é produzir 200 mil barris diários até o fim de 2027, e, nos próximos cinco anos, chegar a 240 mil barris, com R$ 5,2 bilhões investidos.

Lula ainda inaugurou uma usina fotovoltaica na Regap, que deve reduzir em 20% o gasto de energia da refinaria, projeto financiado pelo Fundo de Descarbonização da Petrobras. O governo federal destacou que as iniciativas fortalecem a produção de combustíveis, promovem a transição energética, geram empregos e asseguram confiabilidade operacional. A defesa da reserva estratégica surge em um contexto de turbulência no mercado global, com infraestrutura petrolífera sob ataque e a Organização Marítima Internacional buscando corredores humanitários no Estreito de Ormuz, reforçando a urgência de medidas para garantir a estabilidade do abastecimento no Brasil.