O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o palco da maior feira industrial do mundo, a Hannover Messe, na Alemanha, neste domingo (19), para defender uma parceria estratégica com a Europa baseada em uma matriz energética limpa e para alertar sobre a necessidade de proteger empregos diante do avanço da inteligência artificial. Em discurso acompanhado pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, e por representantes de governos e empresários dos dois países, Lula traçou uma agenda que combina desenvolvimento econômico, sustentabilidade e crítica ao cenário geopolítico atual.

O presidente afirmou que o Brasil pode ser um aliado fundamental para a União Europeia na redução dos custos de energia e na descarbonização da indústria. "Para isso, é essencial que as regras do bloco levem em conta a matriz energética limpa utilizada em nossos processos produtivos", disse Lula, destacando que 90% da energia elétrica do país já é renovável. Ele criticou barreiras comerciais a biocombustíveis, chamando-as de "contraproducentes" do ponto de vista ambiental e energético, e defendeu o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que deve criar um mercado de quase 720 milhões de pessoas.

No campo da tecnologia, o discurso foi marcado por um apelo cauteloso. Lula reconheceu que a inteligência artificial aumenta a produtividade, mas alertou para seus riscos quando usada sem parâmetros legais ou morais, como na seleção de alvos militares. "Se a inteligência artificial causar o bem que nós queremos, é preciso que nos lembremos que, por trás de cada invenção, tem um ser humano. Se ele não tiver mercado de trabalho, o mundo só tende a piorar", argumentou, pedindo que empresários e pesquisadores contabilizem os impactos da automação sobre os trabalhadores.

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Em relação ao mercado de trabalho brasileiro, o presidente comemorou a menor taxa de desemprego da história e defendeu o fim da escala 6x1, com redução da jornada para garantir dois dias de descanso. Ele também aproveitou para combater o que chamou de "narrativas falsas" sobre a sustentabilidade da agricultura nacional, sendo aplaudido ao lembrar o compromisso de desmatamento zero na Amazônia até 2030 e a redução de 50% no desmatamento nos últimos três anos.

O cenário geopolítico foi outro ponto forte do discurso. Lula voltou a criticar os efeitos da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, conflito que classificou como "maluquice". Ele afirmou que o Brasil é um dos países menos afetados, mas tomou medidas internas para minimizar impactos, já que importa 30% do óleo diesel consumido. O presidente condenou o gasto de US$ 2,7 trilhões em guerras em um mundo marcado por desigualdades e pediu responsabilidade aos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.

Lula destacou que os mais vulneráveis são os que mais sofrem com as consequências dos conflitos, como a flutuação no preço do petróleo – que encarece energia e transporte – e a escassez de fertilizantes, que afeta a produção agrícola e aumenta a insegurança alimentar. Diante da "paralisia" da Organização Mundial do Comércio (OMC), ele defendeu a necessidade de "refundar a organização".

O presidente também apresentou números e metas para reforçar o potencial brasileiro na economia verde. Além da matriz elétrica limpa, citou a mistura de 30% de etanol na gasolina e de 15% no biodiesel, produzidos, segundo ele, sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas. Lula mencionou o potencial para produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo e a exploração de minérios críticos, como nióbio, grafita, terra rara e níquel, ressaltando que o Brasil não quer ser "mero exportador", mas buscar parcerias com transferência de tecnologia.

O discurso foi marcado por aplausos em vários momentos, especialmente quando Lula reforçou o compromisso ambiental e a defesa de uma cooperação internacional que equilibre inovação, sustentabilidade e proteção social. A fala na Hannover Messe integra uma agenda europeia do presidente, que incluiu visita à Espanha e busca consolidar o Brasil como um player global em energias renováveis e na discussão sobre os rumos da tecnologia e da geopolítica.