O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo contundente nesta quarta-feira (4) para que líderes mundiais priorizem a paz e o combate à fome em vez de gastos com armamentos. Durante a abertura da 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, no Palácio Itamaraty, Lula apresentou cálculos impactantes sobre como recursos destinados a conflitos poderiam erradicar a fome global.

"Se pegássemos o dinheiro que foi gasto, no ano passado, em armamentos, em conflitos – o equivalente a US$ 2,7 trilhões – e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que, no planeta, passam fome, daria pra ter distribuído US$ 4.285 para cada pessoa. Vocês percebem que não precisaria ter fome no mundo se houvesse o bom senso dos governantes?", questionou o presidente, destacando a contradição entre os investimentos bélicos e as necessidades humanitárias básicas.

Lula enfatizou que a América Latina e o Caribe representam "a única zona de paz no mundo" atualmente, e lembrou que o Brasil tem na Constituição a opção de não possuir armas nucleares. "Há muito tempo, a gente chegou à conclusão de que aquele ditado que diz que quem quer paz se prepara para a guerra é para quem quer fazer guerra. Nós queremos paz porque a paz é a única possibilidade de fazer com que a humanidade avance", afirmou.

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O discurso teve como alvo direto os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU): França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos. "Se esses senhores, que coordenam o Conselho de Segurança como membros permanentes da ONU, se preocupassem com essa questão da fome neste instante ao invés de ficarem discutindo, como agora está se discutindo na Europa, o fortalecimento do armamento dos países, investimentos na defesa", criticou Lula.

O presidente alertou para a espiral armamentista global: "Está todo mundo pensando que vão se agravar os conflitos. E todo mundo quer mais armas, todo mundo quer mais bomba atômica, todo mundo quer mais drone, todo mundo quer aviões de caça cada vez mais caros. E tudo isso não é feito para construir ou para produzir alimentos. Isso é feito para destruir e para diminuir a produção de alimentos ou destruir aquilo que já está plantado".

Lula também abordou especificamente o conflito na Faixa de Gaza, criticando a criação do chamado Conselho de Paz pelo governo estadunidense de Donald Trump. "Compensou destruir Gaza, matando a quantidade de mulheres e crianças que mataram, para agora aparecerem com pompa, criando um conselho para dizer: 'Vamos reconstruir Gaza'? Aí aparece como se fosse um resort, para passar férias no lugar onde estão os cadáveres das mulheres e das crianças que morreram", questionou com indignação.

O presidente brasileiro foi enfático ao afirmar que a fome não é um problema natural, mas político: "A fome não é por um problema de intempéries, não é porque tem excesso de frio e excesso de calor. A fome só existe porque existe uma coisa chamada excesso de irresponsabilidade naqueles que são eleitos para ter responsabilidade".

Em suas considerações finais, Lula agradeceu o trabalho da FAO, mas fez duras críticas à ONU como um todo: "A ONU está ficando desacreditada. A ONU não está cumprindo aquilo que está escrito na sua carta de criação, em 1945. A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço para senhores da paz. Por que a ONU já não convocou uma conferência mundial para discutir esses conflitos?".

O presidente finalizou com um questionamento direto ao ex-presidente dos Estados Unidos: "Vocês acham normal o presidente Trump ficar, todo dia, dizendo: 'Tenho o maior navio do mundo, tenho o maior exército do mundo'. Por que ele não fala: 'Tenho a maior capacidade de produção de alimento do mundo, tenho como distribuir alimento'. Não era muito mais simples? E soaria melhor aos nossos ouvidos".

A cerimônia contou com a presença do Diretor-Geral da FAO, Qu Dongyu, e reuniu representantes de diversos países da região em um momento de crescente preocupação com a segurança alimentar global e os múltiplos conflitos internacionais.