O bairro boêmio da Lapa, no coração do Rio de Janeiro, ganhou nesta quinta-feira (18) uma nova cara com a inauguração de um mural gigante de 300 metros quadrados em homenagem ao cantor e compositor Milton Nascimento. A obra, que ocupa parte da lateral do prédio da Associação Cristã de Moços (ACM), na Rua da Lapa, 86, pode ser vista desde a Praça Cardeal Câmara, em frente aos icônicos Arcos da Lapa.

Carioca de origem e mineiro de coração, Milton Nascimento, carinhosamente chamado de Bituca, completa 83 anos este ano e é considerado um dos maiores nomes da música brasileira. O novo mural se soma a um painel mais antigo de outro ícone da nossa música, Pixinguinha, pintado em 2021, criando um verdadeiro corredor cultural ao ar livre no centro histórico carioca.

A arte foi criada pela artista visual brasiliense Gugie Cavalcanti, que já produziu 15 murais de personalidades negras em diferentes cidades de todas as regiões do Brasil. A imagem escolhida por Gugie foi retirada de uma cena de um "documentário antigo" do cantor. "Ele está ali, conversando com os amigos, descontraído. Ele está olhando para as pessoas com carinho, admiração, uma certa timidez, mas à vontade", explica a artista sobre sua obra.

Publicidade
Publicidade

A iniciativa da homenagem é da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Igualdade Racial (SEDHIR) do Rio de Janeiro e faz parte das ações antirracistas da campanha Novembro Negro. Para Edson Santos, secretário da pasta na Prefeitura do Rio, a obra de Milton Nascimento tem caráter político e também afetivo. "O Milton faz parte da nossa formação. Como diria o Nelson Cavaquinho, a gente tem que entregar 'as flores em vida'", afirmou durante a inauguração.

O momento é especialmente significativo considerando que, em outubro, Milton Nascimento foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy, conforme informou seu filho, o empresário Augusto Nascimento, pelas redes sociais. Augusto participou do evento de inauguração do mural e se mostrou emocionado com a homenagem. "É muito legal que as pessoas façam esse reconhecimento e deem esse carinho", disse à Agência Brasil.

O filho de Bituca destacou ainda a importância simbólica da localização escolhida para o mural. Na Lapa, funcionam a Fundição Progresso e o Circo Voador, "que são dois lugares onde ele se apresentou muitas vezes. São espaços muito simbólicos para música", lembrou Augusto.

A homenagem na Lapa acontece pouco depois de outro reconhecimento importante na carreira de Milton Nascimento. Na última terça-feira (16), o cantor recebeu o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também no Rio de Janeiro. A dupla celebração reforça o lugar de Milton Nascimento não apenas na música brasileira, mas na cultura e na memória afetiva do país.

O mural na Lapa se torna assim mais do que uma obra de arte urbana - é um testemunho do afeto que o povo brasileiro nutre por um de seus maiores artistas, uma forma de manter viva sua presença nas ruas e na memória coletiva da cidade que o viu nascer.