O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) conseguiu uma importante vitória judicial que pode levar a julgamento pelo Tribunal do Júri os acusados pelo assassinato do contraventor Alcebíades Paes Garcia, o Bid, ocorrido durante o carnaval de 2004. A 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) rejeitou, por unanimidade, os recursos das defesas de Bernardo Bello e Wagner Dantas Alegre, mantendo a decisão de primeira instância que os encaminha para julgamento popular.

O crime que chocou o Rio de Janeiro aconteceu na madrugada do dia 25 de fevereiro de 2004, quando Alcebíades Garcia retornava para casa após assistir aos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí. Na porta de sua residência, o conhecido bicheiro foi alvejado por disparos de arma de fogo, em um episódio que revelou as violentas disputas pelo controle do jogo do bicho na cidade.

Segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital e do Ministério Público, Bernardo Bello, genro do falecido contraventor Waldomiro Paes Garcia (Maninho), teria ordenado e coordenado o assassinato. Já Wagner Dantas Alegre, ex-policial militar identificado como matador de aluguel e segurança de Bello, seria o autor material dos tiros que mataram Bid. A denúncia do MPRJ aponta que o crime ocorreu em um contexto de intensa e sangrenta disputa pelos pontos de exploração do jogo do bicho e de máquinas caça-níqueis no Rio de Janeiro.

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O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos pelas relações familiares envolvidas. Alcebíades Garcia era irmão de Waldomiro Paes Garcia (Maninho), também bicheiro assassinado em 1999. Bernardo Bello foi casado com Tamara Garcia, filha de Maninho, com quem tem um filho, e teria ingressado no jogo do bicho após as mortes de Maninho e de Waldemir Paes Garcia (seu Miro), pai de Bid e Maninho, que foi presidente da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro.

Durante o julgamento do recurso na 8ª Câmara Criminal do TJRJ, a procuradora de Justiça integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ apresentou sustentação oral, argumentando pela manutenção da decisão de primeiro grau. Os desembargadores, após analisarem os autos, rejeitaram unanimemente os pedidos das defesas, confirmando a competência do Tribunal do Júri para julgar o caso.

A investigação apurou ainda que o homicídio contou com a participação de seguranças do próprio Bid, também denunciados, que teriam fornecido informações essenciais para a execução do crime. Este detalhe revela a complexidade e as traições que marcam as disputas no mundo do crime organizado.

Atualmente, a situação dos acusados é delicada. Wagner Dantas Alegre encontra-se foragido da Justiça, assim como Fernando Bello, outro envolvido mencionado nas investigações que ainda não foi localizado. Bernardo Bello, por sua vez, responde ao processo em liberdade, aguardando a marcação da data para o julgamento pelo Tribunal do Júri.

O caso do assassinato de Bid é emblemático não apenas pela violência, mas por ilustrar como as disputas pelo controle do jogo do bicho no Rio de Janeiro têm gerado uma sequência de mortes e conflitos entre famílias que dominam esse mercado ilegal. A decisão judicial representa um passo significativo na busca por justiça para um crime que completa quase duas décadas, mostrando que mesmo casos antigos podem avançar quando há perseverança das instituições.