Enquanto os holofotes do carnaval carioca costumam se voltar para o esplendor do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, uma avenida na zona norte da capital fluminense guarda o pulsar mais autêntico da festa. Em 2026, a Avenida Intendente Magalhães, conhecida como Passarela Popular do Samba, retoma seu papel central, recebendo desfiles das escolas das Séries Prata e Bronze e do Grupo de Avaliação. Ao todo, 73 agremiações vão ocupar a via entre os dias 14 e 21 de fevereiro, em uma programação que celebra a raiz do samba.

A Intendente Magalhães se consolidou desde os anos 1990 como um espaço estratégico para escolas fora do circuito da elite carnavalesca. Reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município do Rio de Janeiro, a avenida preserva um formato de desfile marcado pela proximidade. Famílias acompanham as apresentações das calçadas e arquibancadas populares, em um ambiente que contrasta com o glamour da Sapucaí. A concentração das agremiações acontece no bairro do Campinho, área historicamente ligada ao samba e a importantes comunidades.

Para Marquinhos de Oswaldo Cruz, cantor, compositor e ativista cultural do Rio de Janeiro, a Intendente Magalhães representa um espaço onde o samba se apresenta de forma mais próxima de suas origens. "Eu sempre digo e reafirmo que escola de samba não é como time de futebol. A escola de samba é o retrato de uma comunidade que vai para a avenida se mostrar", afirma. Segundo ele, o desfile ali é menos glamoroso, mas carrega um sentido mais profundo de pertencimento.

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Marquinhos avalia que a presença de escolas tradicionais, como São Clemente e Tradição – ambas já integrantes do Grupo Especial e agora rebaixadas –, engrandece os desfiles e reforça o caráter popular da passarela. "Quando uma escola que já teve o glamour do Grupo Especial vai para a Intendente, isso valoriza o desfile que acontece ali, que é muito mais raiz. Você acaba vendo o samba na sua essência, algo que muitas vezes se perde na avenida principal", diz. Ele destaca ainda o papel simbólico da Intendente como espaço de reencontro com os valores comunitários.

A Série Prata, que ocupa posição central na hierarquia do carnaval carioca, funciona como elo entre os grupos de base e a Série Ouro, disputada na Sapucaí, oferecendo duas vagas de acesso em 2026. Os desfiles desta série serão transmitidos pela TV Brasil nos dias 15 e 16 de fevereiro, tanto na TV aberta quanto no YouTube, ampliando o alcance da festa popular.

Além do aspecto cultural, Marquinhos ressalta o impacto social do carnaval na Intendente. "Em dias normais, a Intendente é uma via de passagem. No carnaval, vira um espaço de alegria, de ocupação e até de mais segurança. Quanto mais povoado, mais seguro", afirma. Ele lembra que muitos espectadores não têm condições de ir à Sapucaí e encontram na Intendente a oportunidade de assistir ao samba tradicional. "Hoje a cidade já reconhece: é ali que tem desfile de escola de samba".

A programação completa começa no sábado, 14 de fevereiro, com desfiles da Federação dos Blocos – Grupo 1, seguidos pela Série Prata no domingo e segunda-feira. O Grupo de Avaliação se apresenta na terça-feira, 17 de fevereiro, e a Série Bronze encerra a maratona na sexta e sábado, 20 e 21 de fevereiro. Cada noite promete horas de música, cores e emoção, com escolas como Mocidade Unida do Santa Marta, Arrastão de Cascadura, Império da Tijuca e Acadêmicos do Cubango, entre muitas outras.

Enquanto notícias relacionadas ao carnaval alertam para cuidados com crianças, reforçam a prevenção de doenças e destacam preocupações com assédio, a Intendente Magalhães se firma como um palco de resistência cultural. Mais do que uma alternativa à Sapucaí, ela é um território onde o samba se expressa em sua forma mais genuína, celebrando a história, a comunidade e a paixão que mantêm viva a maior festa popular do Brasil.