Nas águas calmas da Baía de Paranaguá, onde canoas coloridas e redes de pesca ainda definem o ritmo da vida, a Ilha do Maciel, em Pontal do Paraná, está escrevendo um novo capítulo de sua história secular. Com o apoio técnico do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), o Turismo de Base Comunitária (TBC) se tornou o principal instrumento para garantir o desenvolvimento sustentável e a permanência das famílias caiçaras em seu território tradicional.
A iniciativa é conduzida pelo extensionista Charles Fernando Marins Peixoto, especialista em Gestão Turística, que atua diretamente na organização comunitária há mais de dez anos. Seu trabalho envolve planejamento participativo e a estruturação de ações que estão mudando a realidade dos moradores. "Optamos por um modelo que prioriza o protagonismo comunitário, a geração de renda local e a conservação ambiental", observa Peixoto.
A Ilha do Maciel tem mais de dois séculos de ocupação tradicional, mas sua história recente foi marcada por conflitos fundiários e pressões da expansão industrial e portuária na região. As disputas remontam à Lei Estadual nº 249/1949, que desconsiderou a posse tradicional das famílias ao destinar áreas à empresa Balneária Pontal do Sul S/A. Diante dessa ameaça, a organização comunitária tornou-se uma questão de sobrevivência.
Em 2017, foi criada a Associação Comunitária dos Pescadores da Ilha do Maciel. Com o apoio do IDR-Paraná, os pescadores passaram a atuar de forma estruturada na defesa de seus direitos e na construção de alternativas econômicas. Essa mobilização resultou em conquistas importantes, como a obtenção do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS), que garante segurança jurídica aos moradores, e a elaboração do Cadastro Ambiental Rural (CAR) Comunitário, assegurando o reconhecimento ambiental e a gestão coletiva do território.
A chegada da energia elétrica representou outro marco, melhorando a qualidade de vida, viabilizando o armazenamento adequado do pescado e permitindo avanços na infraestrutura necessária para o turismo. Desde 2016, a ilha integra os Circuitos Internacionais de Caminhadas na Natureza, evento promovido pelo IDR-Paraná que reúne cerca de 300 visitantes por edição. A mobilização envolve 19 famílias que oferecem alimentação típica e acolhimento. "O cardápio é a expressão da identidade caiçara: arroz, feijão, peixe fresco frito, farinha de mandioca branca e sucos de frutas nativas da Mata Atlântica. Mais do que gerar renda pontual, o evento reforça o reconhecimento da comunidade como destino turístico de valor cultural e ambiental", afirma Peixoto.
O planejamento participativo coordenado por Peixoto identificou diversas oportunidades para diversificar e agregar valor à produção local. Entre as iniciativas em desenvolvimento estão a produção de pescado defumado, a fabricação de doces artesanais com frutos da floresta, o artesanato, o guiamento em trilhas ecológicas, vivências culturais, a estruturação da pesca de recreio e o turismo de observação de aves.
A busca por essas alternativas é essencial, pois a falta de renda tem levado famílias a deixar a comunidade. Em 2017, eram 43 famílias; em 2023, o número caiu para 27. "Esse fato reforça a necessidade de desenvolver estratégias que estimulem a permanência das novas gerações", ressalta Peixoto. Por meio do Diagnóstico Participativo Rural (DRP), metodologia aplicada pelo IDR-Paraná, os próprios moradores ajudam a definir as prioridades de desenvolvimento. Atualmente, 70% dos responsáveis familiares estão em faixa economicamente ativa, e 19 das 27 famílias demonstram interesse direto em atuar com o TBC.
Estão previstas capacitações em formação de guias, gestão de negócios comunitários e qualificação da infraestrutura paisagística, com foco em criar um ecossistema econômico que fortaleça a sucessão familiar e mantenha os jovens no território. Para o IDR-Paraná, o turismo na Ilha do Maciel vai além da atividade econômica. "Trata-se de uma estratégia integrada de desenvolvimento territorial, proteção ambiental e valorização da cultura caiçara", destaca Peixoto. "A experiência na Ilha do Maciel demonstra que o turismo responsável pode funcionar como instrumento de resistência frente à descaracterização territorial, promovendo desenvolvimento sustentável e preservando o patrimônio cultural do Litoral do Paraná", complementa.

