Enquanto pesquisas de opinião revelam que a maioria da população dos Estados Unidos se opõe à guerra contra o Irã, a elite política em Washington vive um cenário de divisões. Resoluções para obrigar o presidente norte-americano Donald Trump a recuar do conflito estão em tramitação no Congresso, mas enfrentam resistência principalmente do partido republicano, que em sua maioria apoia as ações militares.
Os republicanos, do partido de Trump, têm sustentado a agressão contra Teerã, embora existam divergências na base do movimento Make America Great Again (Maga). Já a maioria dos democratas questiona a legalidade da guerra, argumentando que ela não foi autorizada pelo Congresso, como exige a legislação do país. Essa disputa reflete um abismo entre a opinião pública e as decisões tomadas na capital federal.
Pesquisas recentes ilustram essa desconexão. Um levantamento da Reuters em parceria com o instituto Ipsos, publicado no domingo (1), mostrou que apenas 27% dos estadunidenses aprovam os ataques contra Teerã. Outra pesquisa, divulgada na segunda-feira (4) pela emissora CNN e conduzida pela empresa SSRS, indicou que 41% da população aprova os ataques, enquanto 69% os desaprovam. Sobre os números, Trump foi direto: "Tenho que fazer a coisa certa. Isso deveria ter sido feito há muito tempo", disse ao New York Post.
O professor de História e Política da Universidade de Denver, o brasileiro Rafael R. Ioris, em entrevista à Agência Brasil, avaliou que a oposição à guerra dentro dos EUA ainda não é significativa. "A insatisfação contra a guerra no Irã é pontual e dentro das vozes já críticas ao governo Trump. Mas se houver muitas mortes, poderá aumentar as críticas. Vai depender de como a guerra evolua", afirmou. Para ele, os republicanos que controlam o Congresso não devem apresentar resistências significativas no momento.
Já o professor emérito de História da Universidade de Brown, James N. Green, destacou que existe um setor contrário à guerra dentro do movimento Maga, da base de Trump. "A base de Trump se dividiu. Sempre surge o nacionalismo e uma noção que tem que defender as tropas, mas neste momento a maioria da população está contra a intervenção e um setor minoritário, mais significativo, da Maga, está criticando", comentou Green, que também preside o Washington Brazil Office (WBO).
No Congresso, duas resoluções para limitar os poderes de guerra do presidente estão em tramitação, com o objetivo de barrar o conflito no Oriente Médio. O Senado deve votar uma delas ainda esta semana. Em junho de 2025, no contexto da guerra de 12 dias contra o Irã, o Senado já havia rejeitado uma proposta semelhante.
Os democratas reclamam que o governo Trump não explicou os objetivos da guerra nem o suposto risco imediato que o Irã representaria aos EUA – situação que permitiria ao presidente ir à guerra sem autorização congressional. O senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, autor de uma proposta que obriga Trump a pedir autorização do Congresso, defende que os americanos querem preços baixos e não mais guerras. "Esses ataques são um erro colossal, e espero que não custem a vida de nossos filhos e filhas fardados e em embaixadas por toda a região", afirmou Kaine em rede social.
Porém, há democratas apoiando Trump, como o senador John Fetterman, eleito pela Pensilvânia. "Todos os membros do Senado dos EUA concordam que não podemos permitir que o Irã adquira uma arma nuclear. Fico perplexo com o fato de tantos se recusarem a apoiar a única ação capaz de alcançar esse objetivo", comentou. Enquanto os democratas não formam uma unidade contra a guerra, os republicanos seguem apoiando Trump, ainda que alguns avaliem mudar de posição caso o conflito se prolongue.
A mídia dos EUA também reflete essa divisão. Veículos como CNN e New York Times adotam postura cautelosa, segundo análise do professor Rafael R. Ioris. "Há cautela em não criticar um presidente em tempo de guerra para não serem acusados de falta de patriotismo", avalia. O New York Times, em editorial, afirmou que a ação foi "imprudente", mas defendeu que a eliminação do programa nuclear iraniano seria um "objetivo louvável".
Já o Wall Street Journal foi favorável à agressão, alegando que o erro seria Trump "encerrar a guerra prematuramente". O jornalista Michael Arria, do veículo independente Mondoweiss, que cobre a política externa dos EUA no Oriente Médio, critica: "A mídia americana está disseminando propaganda governamental e ignorando o papel de Israel, enquanto apoia a guerra contra o Irã e pressiona por uma mudança de regime".
Enquanto isso, manifestações contra o conflito foram registradas em cidades norte-americanas, mas os atos não ultrapassaram poucas centenas de participantes. Atos em comemoração à morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, também ocorreram nos EUA, especialmente entre comunidades da diáspora iraniana anti-regime. O cenário mostra um país dividido, onde a vontade popular parece não encontrar eco imediato nas estruturas de poder.

