Na terça-feira de carnaval, quando a Acadêmicos do Grande Rio entrar na avenida, a lama do manguezal do Rio Capiberibe, no Recife, vai se misturar simbolicamente com a do antigo aterro do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. O enredo A Nação do Mangue, desenvolvido pelo carnavalesco Antônio Gonzaga, promete ser uma das grandes homenagens do carnaval carioca de 2026 ao movimento Manguebeat, que revolucionou a cena cultural brasileira nos anos 1990.

Para Gonzaga, a conexão entre o ritmo pernambucano e a escola de samba da Baixada Fluminense vai além da coincidência geográfica. "Tem a ver com o modo da escola de fazer carnaval, com o estilo estético e com o discurso da escola", explicou ele em entrevista à Agência Brasil. Segundo o carnavalesco, ambas as realidades compartilham uma trajetória de transformação social a partir das periferias.

O Manguebeat surgiu no Recife como uma resposta criativa à estagnação cultural e social da cidade. Músicos como Chico Science (da Nação Zumbi) e Fred Zero Quatro (do Mundo Livre S/A) fundiram guitarras do heavy metal e do reggae com tambores do maracatu, do coco e da ciranda, criando um som único que se tornou símbolo de resistência. A lama dos manguezais serviu como metáfora perfeita para essa fertilidade cultural que brotava das margens.

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O manifesto "Caranguejos com cérebro", escrito por Fred Zero Quatro em 1992, já anunciava essa revolução: "O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife".

Para Antônio Gonzaga, nascido em 1994 e portanto mais jovem que o próprio movimento que homenageia, a inspiração veio de berço. "Eu sempre gostei de Nação Zumbi. Meu pai [Renato Lemos, que também assina a sinopse do enredo] escutava em casa, e eu criança escutava por tabela e curtia muito", contou ele no programa Sem Censura, da TV Brasil. A descoberta das semelhanças entre Duque de Caxias e o Recife foi o que selou a ideia: "Pesquisando, achei essa conexão de a região da escola, Caxias, ser uma cidade cercada por manguezais. Então, fazer esse paralelo com os movimentos de periferia da baixada fluminense acho que foi o pulo do gato".

Na avenida, o Recife estará representado em seis setores, com cinco carros alegóricos e três tripés. O carnavalesco promete um desfile colorido e cheio de personalidades recifenses, numa aposta para conquistar o bicampeonato. Mas talvez o elemento mais aguardado seja a batida que sustentará toda essa celebração.

O mestre de bateria Fabrício Machado de Lima, o Mestre Fafá, de 34 anos, garante que seus 270 ritmistas estão prontos para fazer a Sapucaí tremer com uma batida inspirada nas inovações do Manguebeat. "Pode esperar muita alegria, muita bossa inspirada no trabalho de Chico [Science], um cara que misturava muitos ritmos", adiantou Fafá, também no Sem Censura. O arranjo promete referências ao frevo e ao maracatu, seguindo as "viagens" musicais de Chico Science.

A própria fantasia da bateria será uma homenagem: representará o bloco afro Lamento Negro, de Olinda, um dos blocos que Chico Science ajudou a fundar. Essa conexão entre as duas realidades periféricas também ecoa na letra do samba-enredo, assinada por Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni, Marcelo Moraes e Guga Martins: "Eu também sou caranguejo à beira do igarapé / Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré".

A Grande Rio será a penúltima escola a desfilar na terça-feira (17 de fevereiro), fechando os três dias de desfiles do Grupo Especial do carnaval carioca. Enquanto outras escolas levam para a avenida temas como Rita Lee (Mocidade), Carolina Maria de Jesus (Unidos da Tijuca) ou o universo de Ney Matogrosso (Imperatriz), a escola de Duque de Caxias optou por celebrar um movimento que, três décadas depois, continua mostrando como a cultura das periferias pode transformar não apenas uma cidade, mas todo um país.

Mais do que um desfile, A Nação do Mangue promete ser um manifesto carnavalesco sobre resistência, criatividade e a força transformadora que brota da lama - seja a dos manguezais pernambucanos, seja a dos desafios sociais da Baixada Fluminense.