O governador do Maranhão, Carlos Brandão, fez uma proposta ousada durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém: a criação de um fundo internacional financiado por grandes empresas poluidoras para apoiar projetos de sustentabilidade em países e regiões menos desenvolvidas. Para o governador, o financiamento ambiental - um dos temas centrais da conferência - precisa ser assumido também pelas corporações poluidoras dos países ricos.
"As indústrias poluidoras têm que financiar um percentual do faturamento para um fundo de preservação do meio ambiente. Senão vamos ficar passeando de COP em COP e não vamos fazer nada [de concreto]", afirmou Brandão em entrevista à Agência Brasil. O governador não detalhou os percentuais ou mecanismos específicos da proposta, mas foi enfático ao defender que os recursos poderiam ser aplicados tanto em projetos já estruturados quanto em novas iniciativas.
Brandão foi crítico em relação ao que chamou de "injustiça ambiental": "São bilionários, donos de petróleo, poluem o mundo, não dão nada e são os primeiros a cobrar que os países mais pobres preservem o meio ambiente com recursos próprios". Ele lembrou que os países desenvolvidos "já destruíram as florestas deles" e defendeu que as grandes empresas de setores como gás, carvão e petróleo precisam contribuir financeiramente.
Além da proposta do fundo internacional, o governador maranhense participou da COP30 para apresentar iniciativas ambientais que já estão em andamento no estado. Uma das mais significativas é a criação da primeira universidade indígena do Brasil, que será instalada na Terra Indígena Araribóia, no município de Amarante.
O projeto é desenvolvido em parceria com o Instituto Tukán e conta com a participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão, da Universidade Estadual e do Ministério dos Povos Indígenas. "Na realidade, isso partiu do sonho de um grupo de indígenas que nos apresentou a proposta e, junto com a universidade estadual, a gente estruturou o projeto", explicou Brandão.
O processo de criação da universidade indígena já avançou significativamente. Em outubro de 2023 foi assinado o termo de ampliação do Centro de Saberes Tenetehar Tukàn, onde funcionará a instituição. Em julho deste ano foi finalizado o processo de escuta com comunidades indígenas, que ouviu lideranças, mestres de saber tradicional, professores indígenas, pesquisadores e representantes de instituições. "É uma inovação. A gente já conseguiu formar aqui 56 indígenas para lecionar, tanto nas escolas indígenas quanto nessa nova universidade", comemorou o governador.
Na busca por recursos para projetos ambientais, Brandão anunciou um acordo de US$ 100 milhões com a empresa suíça Mercúria, proveniente de compensação de multas ambientais. "Em vez de estar multando as empresas, a gente negocia para que eles façam algum investimento na área ambiental. Até porque a multa fica sempre ruim para a empresa", explicou. O programa recupera áreas degradadas em dez municípios maranhenses através da distribuição de mudas de juçara, uma palmeira semelhante ao açaí.
O Maranhão também receberá cerca de R$ 15 milhões do projeto "Regularização Ambiental através da Governança Fundiária e Ordenamento Territorial como Pilar para o Desenvolvimento Sustentável", aprovado pelo Fundo Brasil ONU através do Consórcio dos Governadores da Amazônia Legal. O projeto tem financiamento do governo do Canadá e apoio do governo federal e da ONU Brasil, com execução prevista até 2026.
Os desafios ambientais no estado são significativos. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que o Maranhão chegou a ocupar a segunda posição no ranking nacional de queimadas em 2025. Além disso, um relatório da Pastoral da Terra sobre violências contra a ocupação mostrou o estado como responsável por mais de um quinto (21,6%) das ameaças de morte em conflitos de terra registrados em 2024.
Diante desse cenário, as iniciativas apresentadas por Brandão na COP30 representam tanto uma resposta local aos problemas ambientais quanto uma proposta global para enfrentar o desafio do financiamento de ações de sustentabilidade em regiões em desenvolvimento.

