Uma cerimônia de formatura diferente, realizada dentro dos muros de uma penitenciária, marcou a conquista de 346 pessoas privadas de liberdade em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná. A Polícia Penal do Paraná (PPPR) promoveu, nesta semana, a solenidade conjunta para custodiados das Unidades de Progressão da cidade, que concluíram etapas do Ensino Fundamental e Médio, além de cursos de qualificação profissional. O evento é considerado um marco no processo de ressocialização e evidenciou o poder transformador da educação, mesmo em contextos de restrição de liberdade.

A iniciativa é fruto de uma parceria robusta entre a PPPR, instituições de ensino e as equipes pedagógicas das unidades. O acesso à educação e à formação foi garantido tanto na Penitenciária Feminina de Foz do Iguaçu – Unidade de Progressão (PFF-UP) quanto na Penitenciária Estadual de Foz do Iguaçu III – Unidade de Progressão (PEF III-UP). Os ensinos Fundamental e Médio foram ofertados na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) pelo Centro Estadual de Educação Básica de Jovens e Adultos (Ceebja) Helena Kolody. Já a qualificação profissional veio por meio de cursos promovidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e pela Universidade Fanduca.

Para o coordenador regional da PPPR em Foz do Iguaçu, Cássio Rodrigo Pompeo, a formatura simboliza um compromisso contínuo. “A formatura de hoje é fruto de um compromisso coletivo que envolve nossas equipes internas, as instituições de ensino parceiras e todos aqueles que acreditam que o conhecimento é capaz de abrir caminhos e ressignificar trajetórias. Nosso propósito é assegurar que essas pessoas retornem ao convívio social com mais autonomia, preparo e oportunidades reais de mudança”, afirmou durante a cerimônia. A fala reforça a visão da educação como uma ferramenta estratégica para reduzir a reincidência criminal e promover a reintegração.

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Os números detalhados mostram o alcance do projeto. Na unidade feminina, a PFF-UP, 13 mulheres receberam certificados do Ceebja: uma no Ensino Fundamental fase I, quatro no Ensino Fundamental fase II e oito no Ensino Médio. Paralelamente, outras 161 detentas concluíram cursos profissionalizantes em áreas como confeitaria, salgados, massas, beleza, costura industrial, motorista de aplicativo e assistente de farmácia. Na unidade masculina, a PEF III-UP, 61 apenados foram certificados pelo Ceebja, sendo 13 no Ensino Fundamental fase I, 37 no Ensino Fundamental fase II e 11 no Ensino Médio. Além disso, 111 custodiados finalizaram cursos de auxiliar de manutenção predial, informática e costura industrial. O projeto educacional vai além: 400 internos participam de um Curso de Teologia, em parceria com a Fatemi, e outros 310 estão matriculados em cursos diversos oferecidos pela Fanduca.

A importância da solenidade foi destacada pela magistrada Juliana Arantes Zanin Vieira, juíza de direito da Vara de Execuções Penais de Foz do Iguaçu. Ela enfatizou que o evento representa um trabalho árduo e coletivo. “Somente o estudo e a educação são motores reais de transformação da vida após a saída do sistema prisional. Sem investimento em educação, não há mudança efetiva”, ressaltou. A declaração da juíva sublinha a necessidade de políticas públicas que priorizem a educação como pilar fundamental da execução penal, indo além da simples custódia.

O diretor do Ceebja, Rafael Estefano Busato, também dirigiu palavras de incentivo aos formandos. “É muito gratificante perceber que a trajetória de cada um não é determinada pelo que passou, mas pelas oportunidades que são abraçadas, pela superação diária e pelo esforço em ler um livro, dedicar-se e seguir em frente”, disse. A fala busca valorizar a agência e a capacidade de escolha dos indivíduos, mesmo em situações adversas, reforçando que a educação pode ser um novo ponto de partida.

A cerimônia, realizada nas dependências da PFF-UP, teve um caráter interinstitucional marcante. Contou com uma apresentação do coral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e reuniu um amplo leque de representantes: do Poder Judiciário, da Defensoria Pública, do Conselho da Comunidade, profissionais do Senai e do Senac, a equipe do Ceebja Helena Kolody, o Núcleo Regional de Educação e servidores da regional administrativa de Foz do Iguaçu. Essa convergência de esforços demonstra que a ressocialização é um desafio que demanda a atuação coordenada de diversos setores da sociedade e do Estado.

O evento em Foz do Iguaçu serve como um exemplo concreto de como a educação pode operar dentro do sistema prisional. Mais do que uma cerimônia de entrega de diplomas, a formatura simboliza a abertura de portas e a construção de novas perspectivas para centenas de pessoas. Enquanto debates sobre segurança pública e políticas penais seguem em pauta, iniciativas como esta mostram que investir na qualificação e no ensino dos custodiados é um caminho viável e necessário para promover mudanças sociais duradouras e reduzir os ciclos de violência e exclusão.