Pesquisadores do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) alcançaram resultados promissores ao utilizar uma esponja absorvível com melatonina para melhorar o transplante de tecido ovariano autólogo, procedimento indicado para preservar a fertilidade de crianças e adolescentes que passaram por tratamento oncológico, bem como de pacientes com contraindicação ou sem tempo hábil para estímulo hormonal e captura de óvulos. O estudo teve apoio da Fapesp e foi publicado na revista Reproductive Biology and Endocrinology.
O método consiste em retirar fragmentos de tecido ovariano e congelá-los. Após o término do tratamento contra o câncer e a confirmação de que a paciente está livre da doença, o tecido é descongelado e transplantado de volta para restaurar a fertilidade e a função endócrina, que tendem a ser prejudicadas pelos medicamentos oncológicos. O processo não atrasa o tratamento, independe do ciclo menstrual e da necessidade de parceiro, sendo a única opção para crianças e adolescentes.
“No meu pós-doutorado, desenvolvemos uma estratégia de tratamento do enxerto ovariano por meio de esponja absorvível para a aplicação de células-tronco derivadas do tecido adiposo, tornando-a menos invasiva e menos lesiva ao tecido”, conta a ginecologista e obstetra Luciana Damous, coordenadora do projeto. A partir disso, a equipe avaliou o uso de substâncias antioxidantes e regenerativas que aceleram a revascularização do tecido, evitando a perda de folículos ovarianos, comum por ser um enxerto avascular, sem união cirúrgica de vasos sanguíneos.
A melatonina, conhecida por suas propriedades antioxidantes e antiapoptóticas (que evitam a morte celular programada), foi testada. Em modelo experimental com ratas, os ovários foram retirados, criopreservados lentamente e armazenados em nitrogênio líquido por 24 horas. Após descongelamento, foi feito o transplante autólogo (cada animal recebeu seu próprio par de ovários) em local ectópico (cavidade abdominal, sobre o músculo psoas) e avascular.
“Os animais foram distribuídos em dois grupos: aplicação da esponja absorvível embebida com meio de cultura [grupo-controle] e esponja absorvível embebida em melatonina. Depois foram acompanhados por 30 dias, com coletas diárias de esfregaços vaginais para controle do retorno funcional dos ovários transplantados”, explica Damous. Ao final, os enxertos foram coletados para análise.
Os resultados mostraram que todos os animais tiveram retorno da função ovariana, mas aqueles que receberam melatonina apresentaram aumento da vascularização e redução da apoptose nos corpos lúteos, sem induzir inflamação ou fibrose. Isso pode contribuir para melhorar a viabilidade do enxerto ovariano. O artigo intitulado “Frozen-thawed ovarian autografts treated with scaffold-based melatonin delivery in rats” pode ser lido na íntegra em link.springer.com.

