A Academia Alfredo Andersen, em Curitiba, recebe a partir deste fim de semana a escultora Luiza Nascimento como nova residente artística. Ela ocupará o ateliê da instituição até a última semana de abril, dedicando-se à criação de uma escultura em cerâmica que homenageia Ana de Oliveira, esposa do pintor Alfredo Andersen, considerado o pai da pintura paranaense. Com o tema “Travessia”, o projeto busca explorar as relações afetivas e existenciais que marcaram a trajetória do casal.

Luiza Nascimento explica que a inspiração para a residência veio da obra “Intimidade I”, de Andersen, que retrata Ana de Oliveira descontraída e sentada no chão com sua filha – uma postura incomum para a época. Ao observar a pintura, a artista vislumbrou, pelos olhos sensíveis do pintor, a importância daquela mulher e sua profunda conexão com a terra. “A obra proposta vem do meu imaginário ao me colocar através dos olhos do artista e de suas sensações, representada por Ana, jovem, em pé na areia, agarrando a areia com seus pés, representando o enraizamento de Alfredo no solo brasileiro. Vestida de branco com seu cabelo movimentando-se suavemente ao vento remetendo ideia de arrebatamento a uma liberdade subjetiva encontrada no deslumbrante cenário que o impacta por sua beleza única”, detalha Luiza.

A partir dessa ideia, a artista produzirá uma escultura que simboliza o papel de Ana como âncora para que Andersen permanecesse no Brasil. Natural de povos tradicionais de Paranaguá, Ana de Oliveira é representada como uma mulher jovem em pé na areia, com os pés escultóricos como se agarrassem a terra. Para a confecção da peça, serão usados cerca de 30 quilos de argila, em um processo que mescla técnica e sensibilidade. Durante a residência, Luiza receberá visitantes às terças, quartas e sextas-feiras, das 9h45 às 12h, no Museu Casa Alfredo Andersen, localizado na Rua Mateus Leme, 336, no Centro de Curitiba. A entrada é gratuita, oferecendo ao público a oportunidade de acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.

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Nascida em Irati, no Paraná, Luiza Nascimento se mudou para Curitiba ainda na primeira infância. Filha de artista, ela cresceu em contato com experiências estéticas diversas, frequentando escolinhas de arte e convivendo com engenheiros, arquitetos e decoradores que integravam seu núcleo familiar. Seu contato com o Movimento Paranista foi especialmente forte, pois sua mãe foi aluna de artistas como Theodoro de Bona (discípulo de Andersen) e Guido Viaro. Entre 1988 e 1990, Luiza estudou na própria Academia Alfredo Andersen, onde cursou disciplinas como Figura Humana, Linguagem Visual, Colagem e História da Arte. Embora não tenha concluído os estudos na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, manteve o interesse pela arte, assinando a ilustração do livro “Pegadas”, de Paula Mandel. Em 2024, retornou à Academia para retomar seus estudos artísticos, descobrindo uma paixão pela escultura.

“Para mim, participar da residência é um presente e uma porta que se abre. Como eu sinto na escultura esse chamado, essa identificação, vejo que o projeto é uma continuação desse chamado e uma confirmação de que é o caminho que eu devo adentrar com tudo, de cabeça”, afirma a artista. A residência “Travessias” não apenas celebra a figura de Ana de Oliveira, mas também reforça a importância das mulheres na história da arte paranaense, muitas vezes relegadas a segundo plano. Ao resgatar essa narrativa, Luiza Nascimento convida o público a refletir sobre afeto, pertencimento e as raízes que unem pessoas e lugares.

Enquanto isso, o estado do Paraná segue com agendas culturais paralelas, como a consulta pública para os editais Viva Cultura e Qualifica Paraná, e a oferta de atividades gratuitas às quartas-feiras no MON (Museu Oscar Niemeyer), em abril. Essas iniciativas complementam o cenário artístico local, mas a residência de Luiza se destaca por seu caráter íntimo e histórico, conectando passado e presente através da escultura. Para os curitibanos e visitantes, a oportunidade de testemunhar a criação ao vivo é um convite a mergulhar na trajetória de Alfredo Andersen e Ana de Oliveira, revisitada pelas mãos de uma artista contemporânea.