Em resposta à crescente pressão das autoridades e à ameaça concreta de perder a concessão que mantém há anos, a Enel anunciou nesta quarta-feira (17) um ambicioso plano de investimentos de R$ 10 bilhões para a região metropolitana de São Paulo. O anúncio ocorre menos de 24 horas após o governador Tarcísio de Freitas, o prefeito Ricardo Nunes e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, terem declarado que vão pedir à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a caducidade do contrato de distribuição de energia em 24 municípios.
A empresa, que enfrenta críticas históricas pela qualidade do serviço e que viu a situação se agravar dramaticamente na semana passada com um apagão de mais de cinco dias para milhões de clientes, mudou radicalmente seu discurso. O foco do novo pacote, segundo a nota divulgada pela concessionária, será a aceleração da transição para redes subterrâneas, investimentos na resiliência da rede e na digitalização da fiscalização.
"A solução necessária exige investimentos maciços em redes resilientes e digitalizadas, além da implantação em larga escala de uma rede de distribuição subterrânea", afirmou a Enel. A empresa destacou que a medida "requer um plano estruturado e coordenado com as autoridades públicas" e que está disposta a realizar os investimentos como parte de "uma estratégia compartilhada com todas as instituições envolvidas".
A postura representa uma virada de chave. Em outras ocasiões, a própria Enel havia rechaçado publicamente a ideia de enterrar os fios, argumentando que a medida era inviável financeiramente. O apagão prolongado da última semana, causado pela queda de árvores sobre a rede aérea, que destruiu cabos e postes, parece ter sido o estopim para uma mudança de estratégia diante da ameaça real de perder o negócio.
Paralelamente ao anúncio dos R$ 10 bilhões, a empresa divulgou dados operacionais em uma tentativa de demonstrar esforços recentes. A Enel informou que tem ampliado contratações, com um aumento de 15% no número de funcionários diretos e terceirizados, somando mais de 4,6 mil novas admissões no ano. Os custos com serviços, como poda de árvores, subiram 16,8%, e os investimentos acumulados em 2025 já chegam a R$ 1,9 bilhão, um crescimento de 25,8% em relação ao mesmo período de 2024.
A concessionária também afirmou que sua receita operacional líquida cresceu 8,9% e superou os R$ 16 bilhões, com lucros de cerca de R$ 650 mil até setembro. "A distribuidora confirma o cumprimento integral dos indicadores regulatórios, tendo apresentado avanços consistentes em todos os índices relacionados à qualidade do serviço", complementou a nota, em referência às fiscalizações da Aneel.
Do outro lado, a Aneel informou, também nesta quarta-feira, que incluiu as informações sobre a recente interrupção prolongada no processo de monitoramento que estabeleceu após o grande apagão de outubro de 2024. Naquela ocasião, a agência já havia emitido um termo de intimação contra a Enel, que é uma etapa preparatória para uma recomendação de caducidade do contrato ao Ministério de Minas e Energia (MME).
O movimento do governo de São Paulo, da prefeitura e do MME coloca a Enel em uma encruzilhada. De um lado, a promessa de um investimento histórico de R$ 10 bilhões, com foco em uma demanda antiga da população: a rede subterrânea. De outro, a desconfiança das autoridades, que decidiram acionar o mecanismo mais drástico da regulação – a caducidade – após anos de problemas crônicos e um evento recente de grande magnitude. A bola agora está com a Aneel, que terá de analisar o pedido das autoridades e a nova proposta de investimentos da empresa, em um processo que definirá o futuro do fornecimento de energia para milhões de paulistas.

