Lideranças indígenas de todo o Brasil desembarcam em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, para o Encontro com Arariboia, projeto que promove debates, intervenções e atividades artísticas pautadas na herança ancestral do município. O evento, que começa nesta sexta-feira (20) e segue até domingo (22), tem entrada gratuita, mediante retirada de ingresso pela página bit.ly/inscricaoarariboia.
Niterói carrega uma singularidade histórica: é a única cidade brasileira oficialmente fundada por um indígena, o cacique Araribóia, do povo Temiminó. Em 1572, ele recebeu terras da coroa portuguesa como recompensa por ajudar na expulsão dos franceses da Baía de Guanabara. Essa raiz indígena é o ponto de partida para o encontro, que busca consolidar a cidade como referência de culturas indígenas no país.
"Antes de qualquer Ibéria e antes de qualquer América, este território é indígena. Nós somos filhos da floresta, do rio, da pedra, da terra", afirma Daiara Tukano, uma das curadoras do projeto, destacando que a região é "um lugar sagrado" para os povos originários. Para a organização, o evento atua como um pontapé na construção de um espaço de escuta ativa e troca de saberes.
A programação conta com nomes de peso do movimento indígena nacional, como o escritor e ativista Ailton Krenak, o líder Marcos Terena (MS), a ativista Yakuy Tupinambá (BA) e o representante do Ministério dos Povos Indígenas Karkaju Pataxó (BA). Também participam lideranças da região, como Martinha Guajajara, Cacica Jurema Nunes, Carolina Potiguara e Seu Chico.
O destaque da agenda é a encenação "Veredito Ancestral", um tribunal simbólico representado por um Conselho de Sentença. Nele, convidados indígenas vão julgar os acontecimentos da batalha de Uruçumirim, ocorrida no século 16, que envolveu forças de colonizadores portugueses, franceses e diferentes povos indígenas. O confronto marcou o fim da disputa entre França e Portugal pelo controle da região, resultando na continuidade do núcleo urbano que deu origem ao Rio de Janeiro.
Para a secretária municipal das Culturas de Niterói, Júlia Pacheco, é fundamental reconhecer e valorizar essa ancestralidade. "O Encontro com Arariboia reúne pensamento, arte e memória para revisitar a história da Baía da Guanabara a partir dos povos que sempre estiveram aqui. É um passo importante para fortalecer a presença indígena na cena cultural e no debate público da cidade", avalia.
O evento ocorre em um momento de visibilidade para pautas indígenas no Brasil, com notícias recentes como o anúncio do MEC sobre a construção de 117 escolas indígenas e a fixação de vagas para indígenas, negros e quilombolas em formações militares. Além disso, estudos como o do IBGE têm destacado desafios como a vulnerabilidade que reduz a altura média de crianças indígenas e nordestinas, reforçando a necessidade de políticas públicas específicas.
Com uma programação que mistura arte, história e ativismo, o Encontro com Arariboia se propõe a ser mais do que um evento cultural: é uma oportunidade de reescrever narrativas e fortalecer a voz dos povos originários no cenário nacional.

