O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, fez duras críticas aos Estados Unidos nesta segunda-feira (30) e revelou que a população iraniana tem pressionado o governo a não aceitar promessas de negociação norte-americanas. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o diplomata afirmou que o presidente Donald Trump dialoga "com ele mesmo" e que essa ilusão de negociação entre os dois países já virou "piada mundial".

Ghadiri destacou que a opinião pública no Irã está exercendo forte influência sobre as decisões governamentais. "A opinião pública no Irã está pressionando seriamente o governo iraniano e o instando a não se deixar enganar pelas negociações da outra parte", afirmou o embaixador, referindo-se aos Estados Unidos.

O diplomata iraniano reagiu às recentes declarações de Trump, que voltou a afirmar que há negociações com um suposto "novo regime" no Irã, renovando ameaças de atacar infraestruturas de energia elétrica e de petróleo caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz. "Diariamente, o senhor Trump está negociando consigo mesmo e pensa que está negociando conosco. Essa ilusão tornou-se tão explícita, tão clara, que virou piada mundial", criticou Ghadiri.

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Contexto político interno

O embaixador também comentou sobre a estrutura de poder no Irã após a morte do líder supremo Ali Khamenei em fevereiro. Seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, assumiu o topo da estrutura de poder do país, que além do Executivo, do Parlamento e do Judiciário, conta com o Conselho dos Guardiões - formado por seis indicados do próprio Aiatolá Khamenei e seis indicados pelo Parlamento.

Questionado sobre a situação interna do país após um mês de conflito, Ghadiri afirmou que os ataques têm fortalecido a unidade nacional. "A reação do povo iraniano, nesses últimos 31 dias de guerra, é nas ruas. Durante esse tempo, as pessoas estão sob chuva, neve, com frio. O povo permanece nas ruas e defende fortemente a soberania", descreveu.

Posição sobre grupos aliados

O diplomata questionou a tese de que grupos como Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen, seriam "proxies" do Irã - termo usado quando um grupo age em nome de um Estado ou entidade. "Os EUA, o Ocidente e o regime sionista colocaram, de uma forma inadequada, uma linguagem política sobre esses grupos que buscam liberdade nos seus países", argumentou Ghadiri.

Ele defendeu que esses grupos são independentes e lutam por seus próprios interesses nacionais, citando como exemplo a formação do Hezbollah após a invasão israelense do Líbano na década de 1980. "Eles estão lutando pela sua população, pelo seu país. Eles não estão lutando por uma outra entidade", afirmou o embaixador.

Críticas à cobertura midiática

Ghadiri elogiou a cobertura da maioria dos veículos brasileiros sobre o conflito, mas criticou especificamente o jornal Estado de S. Paulo pela publicação do editorial "Ninguém vai chorar pelo Irã". "Especialmente em uma situação de guerra, essa postura busca fomentar e aumentar os ataques contra a população civil", afirmou, acrescentando que houve negativa de conceder direito de resposta.

O embaixador também rebateu alegações de que universidades iranianas seriam usadas para atividades de defesa, destacando a tradição acadêmica do país. "Nós fundamos a Universidade Jodhichapur, que é a primeira universidade no mundo que se aproxima do formato universitário dos dias de hoje", afirmou, ressaltando que a instituição tem entre 1,8 mil e 2 mil anos de existência.

Perspectivas de negociação

Sobre possíveis negociações de paz, Ghadiri foi cético, lembrando experiências anteriores. "Em junho de 2025, quando estávamos no meio das negociações com os Estados Unidos, fomos atacados e aconteceu a guerra de 12 dias", recordou. "Essas duas guerras mostram que o outro lado busca um círculo composto por guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra. Não devemos aceitar essa lógica."

O embaixador finalizou reafirmando a determinação iraniana em manter sua soberania: "Somos um país independente que se baseia no poder nacional e nos avanços e progressos nacionais. A civilização iraniana é muito enraizada. Nossas raízes têm 7 mil anos. Essa árvore poderosa pode se mover com ventos muito fortes, mas ainda permanece intacta e firme".